terça-feira, 26 de dezembro de 2006

Uma Parábola

Certa vez, disse o Buddha uma parábola:

Um homem viajando em um campo encontrou um tigre. Ele correu, o tigre em seu encalço. Aproximando-se de um precipício, tomou as raízes expostas de uma vinha selvagem em suas mãos e pendurou-se precipitadamente abaixo, na beira do abismo. O tigre o farejava acima. Tremendo, o homem olhou para baixo e viu, no fundo do precipício, outro tigre a esperá-lo. Apenas a vinha o sustinha.

Mas ao olhar para a planta, viu dois ratos, um negro e outro branco, roendo aos poucos sua raiz. Neste momento seus olhos perceberam um belo morango vicejando perto. Segurando a vinha com uma mão, ele pegou o morango com a outra e o comeu.

"Que delícia!", ele disse.

sábado, 16 de dezembro de 2006

A Pedrinha no Bambu

Hsiang-yen foi discípulo de Pai-chang. Era uma pessoa muito inteligente, e sempre confiou na presunção de que se estudasse e absorvesse todo o conhecimento dos termos e textos buddhistas, seria um entendedor do Zen. Após a morte de seu mestre, ele dirigiu-se a Kuei-shan - que era o mais antigo discípulo de Pai-chang - para que este lhe orientasse. Mas Kuei-shan comentou:

"Soube que estiveste sob a orientação de meu antigo mestre e falaram-me de tua notável inteligência. Tentar compreender o buddhismo através deste meio leva geralmente a uma compreensão analítica, que em si nada tem de útil, mas que pode indiretamente levar o praticante a uma intuição do sentido Zen. Por isso, eu lhe pergunto: como tu eras antes de teus pais terem lhe concebido?"

Hsiang-yen ficou pasmo, sem saber o que dizer. Pediu licença e foi para seu quarto, e procurou em todos os textos e conceitos uma resposta para a estranha questão. Não foi capaz, e voltou ao outro monge. Pediu-lhe para ensinar sobre o sentido do que quis dizer, e Kuei-shan perguntou:

"Sinto muito, mas nada tenho a lhe dar. Tu sabes mais do que eu, e se nós debatêssemos com certeza eu ficaria em dificuldades. Tudo o que eu lhe pudesse dizer pertence às minhas descobertas pessoais e jamais poderia ser teu."

Hsiang-yen ficou desapontado e achou que o monge mais velho lhe estava escondendo algo deliberadamente. Resolveu partir do templo, e buscar o conhecimento através dos livros e conceitos, pois achava que na verdade o seu conhecimento não era suficiente, e por isso o outro não quis lhe responder. Foi morar em um eremitério e passou a estudar com afinco. Após vários anos, achando-se suficientemente conhecedor dos conceitos buddhistas, voltou a Kuei-shan. Este, quando ouviu suas doutas explicações e sua solicitação por orientação, apenas sorriu e nada disse. Virou-se e foi embora.

Hsiang-yen ficou irritadíssimo. Naquele momento tomou uma decisão, destruiu todos os seus textos e resolveu desistir dos estudos, ainda que já fosse um grande intelectual. Ele pensou: "Qual a utilidade de estudar o buddhismo, se este é tão sutil e se é tão difícil receber instruções de outrem? Serei agora um simples monge praticante, e desisto de entender qualquer coisa!"

Abandonou o templo e suas cercanias, construiu uma cabana próxima à sepultura de Chu, o Mestre Nacional de Nan-yang, e passou a viver uma vida simples longe dos estudos e questões.

Certo dia, estava varrendo o chão de sua casa quando a vassoura tocou numa pedrinha, que rolou e bateu em um bambu. Em meio ao silêncio, o som ecoou suavemente. Ao ouvir este som, Hsiang-yen experimentou o Satori, e finalmente compreendeu o que tinha lhe dito Kuei-shan. Ele então ajoelhou-se e silenciosamente fez uma reverência de agradecimento ao sábio monge.

terça-feira, 12 de dezembro de 2006

O Médico e o Zen

Kenso Kusuda, diretor de um hospital em Nihonbashi, Tóquio, recebeu um dia a visita de um velho amigo, também médico, que não via há sete anos.

"Como vai?", perguntou Kusuda.

"Deixei a medicina", respondeu o amigo.

"Ah, sim?"

"Na verdade, agora eu pratico o Zen."

"E o que é o Zen?"-- quis saber Kusuda.

"É difícil explicar..." -- hesitou o amigo.

"E como é possível entendê-lo, então?"

"Bem, deve-se praticá-lo."

"E como faço isso?"

"Em Koishikawa, há uma sala de meditação dirigida pelo Mestre Nan-In. Se quiser experimentar, vá até lá."

No dia seguinte Kusuda dirigiu-se à sala de meditação do Mestre Nan-In. Ao chegar, gritou:

"Com licença!"

"Quem é?" responderam lá de dentro. Um velho de aspecto miserável, que se aquecia junto a um fogareiro próximo ao vestíbulo, dirigiu-se a ele. Kusuda entregou-lhe seu cartão e o velho, após dar uma olhada, disse sorrindo:

"Olá!!! Faz tempo que o senhor não aparece!"

"Mas... é a primeira vez que venho aqui!" - disse Kusuda, surpreso.

"Ah, sim? É a primeira vez? Como está escrito 'Diretor de hospital', pensei que fosse o Sasaki. O que o senhor deseja?"

"Quero falar com o Mestre Nan-in."

"Já está falando com ele!" disse o velho, abrindo um largo sorriso.

"Então o Mestre Nan-in é o senhor?", disse Kusuda meio desconfiado. Esperava alguém mais "venerável".

"Eu mesmo", respondeu o velho, sem dar mostras de resolver a mandar seu visitante entrar. Já meio desanimado e um tanto desdenhoso, Kusuda decidiu falar ali mesmo, de pé, no vestíbulo:

"Eu gostaria que o senhor me ensinasse a praticar o Zen."

O velho olhou para ele e disse:

"Praticar o Zen? O senhor é um médico não? Deve então tratar bem de seus doentes e se esforçar para o bem de sua família, o Zen é isso. Agora, pode ir embora."

Kusuda voltou para casa, sem entender nada. Intrigado com as palavras de Nan-In, três dias depois resolveu visitar novamente o velho Mestre. Nan-In atendeu-o novamente no Vestíbulo.

"Novamente o senhor aqui? O que deseja?"

"Insisto para que o senhor me ensine a praticar o Zen!" - disse Kusuda petulantemente.

"Ora, nada tenho a acrescentar ao que já disse outro dia. Vá embora e seja um bom médico". E fechou a porta.

Dois ou três dias depois, Kusuda novamente voltou a ver o Mestre, pois absolutamente não conseguira entender suas palavras.

"Outra vez aqui?"

"Eu vim porque não consegui entender suas palavras, por mais que pensasse sobre elas."

"Pensando nas palavras é que o senhor não vai entender coisa nenhuma mesmo!" - disse o velho monge.

"Então o que eu devo fazer?" - disse Kusuda, já quase desesperado.

"Procure perceber por si, ora essa! Agora, vá embora."

Mas Kusuda desta vez zangou-se muito e respondeu:

"Por três vezes, embora tenha muitos afazeres, larguei tudo e vim até aqui pedir-lhe para me ensinar o Zen e sempre o senhor me manda embora sem me dar o mínimo esclarecimento! Que espécie de mestre é o senhor, afinal!?!"

"Ah! Finalmente ele zangou-se!", exclamou o Mestre.

"Mas é EVIDENTE!", desabafou o médico.

"Então agora chega de palavreado e seja educado! Faça-me uma saudação."

Encarando fixamente o velho monge, Kusuda reprimiu sua vontade de dar-lhe um soco na cara e inclinou-se em reverência. O Mestre então conduziu-o à sala de meditação e o ensinou a praticar zazen.

Anos depois, Kusuda finalmente entendeu porque o Zen também é cuidar bem dos doentes e esforçar-se para o bem de sua família.

sábado, 2 de dezembro de 2006

Transitoriedade

Certa vez, uma pequena onda do oceano percebeu que ela não era igual às outras ondas e disse:

"Como sofro! Sou pequena, e vejo tantas ondas maiores e poderosas do que eu! Sou na verdade desprezível e feia, sem força e inútil..."

Mas outra onda do oceano lhe disse:

"Tu sofres porque não percebes a transitoriedade das formas, e não enxergas tua natureza original. Anseias egoísticamente por aquilo que não és, e mergulhas em auto-piedade!"

"Mas," replicou a pequena onda,"se não sou realmente uma pequena onda, o que sou?"

"Ser onda é temporário e relativo. Não és onda, és água!"

"Água? E o que é água?"

"Usar palavras para descrevê-la não vai levar-te à compreensão. Contemples a transitoriedade à tua volta, tenhas coragem de reconhecer esta transitoriedade em ti mesma. Tua essência é água, e quando finalmente vivenciares isso, deixarás de sofrer com tua egóica insatisfação..."

sábado, 25 de novembro de 2006

Egoísmo

O Primeiro Ministro da Dinastia Tang era um herói nacional pelo seu sucesso tanto como homem de estado quanto como líder militar. Mas a despeito de sua fama, poder e riqueza, ele se considerava um humilde e devoto Buddhista. Freqüentemente ele visitava seu mestre Zen favorito para estudar com ele, e eles pareciam se dar muito bem. O fato de que ele era primeiro ministro aparentemente não tinha efeito em sua relação, que parecia ser simplesmente a de um reverendo mestre e seu respeitoso estudante.

Um dia, durante sua visita usual, o Primeiro Ministro perguntou ao mestre, "Mestre, o que é o egoísmo de acordo com o Buddhismo?"

O rosto do mestre ficou vermelho, e num tom de voz extremamente desdenhoso e insultuoso ele gritou em resposta:

"Que tipo de pergunta estúpida é esta?!?"

Tal resposta tão inesperada chocou tanto o Primeiro Ministro que este tornou-se imediatamente arrogante e com raiva:

"Como ousa me tratar assim?"

Neste momento o mestre Zen sorriu e disse:

"ISTO, Sua Excelência, é egoísmo..."

sábado, 18 de novembro de 2006

Homem Santo

Boatos espalharam-se por toda a região acerca do sábio Homem Santo que vivia em uma pequena casa sobre a montanha. Um homem da vila decidiu fazer a longa e difícil jornada para visitá-lo. Quando chegou na casa, ele viu um simples velho dentro que o recebeu, abrindo a porta.

"Eu gostaria de ver o sábio Homem Santo," disse ele ao outro. O velho sorriu e permitiu-o entrar.

Enquanto eles caminhavam ao longo da casa, o homem da vila olhava ansiosamente em torno, antecipando seu encontro com um homem considerado um verdadeiro Santo. Mas antes que pudesse dar pela coisa, ele já havia percorrido a extensão da casa e levado para fora. Ele parou e voltou-se para o velho:

"Mas eu quero ver o Homem Santo!"

"Já o fizeste," disse o velho. "Todos que tu encontras em tua vida, mesmo se eles pareçam simples e insignificantes... veja cada um deles como um sábio Homem Santo. Se fizeres deste modo, então quaisquer que sejam os problemas que trouxestes aqui hoje, serão resolvidos..."

E fechou a porta.

quarta-feira, 15 de novembro de 2006

Talvez

Há um conto Taoísta sobre um velho fazendeiro que trabalhou em seu campo por muitos anos. Um dia seu cavalo fugiu. Ao saber da notícia, seus vizinhos vieram visitá-lo.

"Que má sorte!" eles disseram solidariamente.

"Talvez," o fazendeiro calmamente replicou. Na manhã seguinte o cavalo retornou, trazendo com ele três outros cavalos selvagens.

"Que maravilhoso!" os vizinhos exclamaram.

"Talvez," replicou o velho homem. No dia seguinte, seu filho tentou domar um dos cavalos, foi derrubado e quebrou a perna. Os vizinhos novamente vieram para oferecer sua simpatia pela má fortuna.

"Que pena," disseram.

"Talvez," respondeu o fazendeiro. No próximo dia, oficiais militares vieram à vila para convocar todos os jovens ao serviço obrigatório no exército, que iria entrar em guerra. Vendo que o filho do velho homem estava com a perna quebrada, eles o dispensaram. Os vizinhos congratularam o fazendeiro pela forma com que as coisas tinham se virado a seu favor.

O velho olhou-os, e com um leve sorriso disse suavemente:

"Talvez."

sábado, 11 de novembro de 2006

Fala correta

Se não for verdade, não trouxer benefícios e for desagradável, não diga.
Se não for verdade, não trouxer benefícios e for agradável, não diga.
Se for verdade, mas não trouxer benefícios e for desagradável, não diga.
Se for verdade, não trouxer benefícios e for agradável, não diga.
Se for verdade, benéfico mas desagradável, saiba quando dizer.
Se for verdade, benéfico e agradável, saiba quando dizer.

sábado, 4 de novembro de 2006

Certo e Errado

Quando Bankei realizava seus retiro semanais de meditação, discípulos de muitas partes do Japão vinham participar. Durante um destes Sesshins um discípulo foi pego roubando. O caso foi reportado a Bankei com a solicitação para que o culpado fosse expulso.

Bankei ignorou o caso.

Mais tarde o discípulo foi surpreendido na mesma falta, e novamente Bankei desdenhou o acontecimento. Isto aborreceu os outros pupilos, que enviaram uma petição pedindo a dispensa do ladrão, e declarando que se tal não fosse feito eles todos iriam deixar o retiro.

Quando Bankei leu a petição ele reuniu todos diante de si.

"Vocês são sábios," ele disse aos discípulos. "Vocês sabem o que é certo e o que é errado. Vocês podem ir para qualquer outro lugar para estudar e praticar, mas este pobre irmão não percebe nem mesmo o que significa o certo e o errado. Quem irá ensiná-lo se eu não o fizer? Eu vou mantê-lo aqui mesmo se o resto de vocês partirem."

Uma torrente de lágrimas foram derramadas pelo monge que roubara. Todo seu desejo de roubar tinha se esvaecido.

terça-feira, 31 de outubro de 2006

Presente de Insultos

Certa vez existiu um grande guerreiro. Ainda que muito velho, ele ainda era capaz de derrotar qualquer desafiante. Sua reputação estendeu-se longe e amplamente através do país e muitos estudantes reuniam-se para estudar sob sua orientação.

Um dia um infame jovem guerreiro chegou à vila. Ele estava determinado a ser o primeiro homem a derrotar o grande mestre. Junto à sua força, ele possuía uma habilidade fantástica em perceber e explorar qualquer fraqueza em seu oponente, ofendendo-o até que a este perdesse a concentração. Ele esperaria então que seu oponente fizesse o primeiro movimento, e assim revelando sua fraqueza, e então atacaria com uma força impiedosa e velocidade de um raio. Ninguém jamais havia resistido em um duelo contra ele além do primeiro movimento.

Contra todas as advertências de seus preocupados estudantes, o velho mestre alegremente aceitou o desafio do jovem guerreiro. Quando os dois se posicionaram para a luta, o jovem guerreiro começou a lançar insultos ao velho mestre. Ele jogava terra e cuspia em sua face. Por horas ele verbalmente ofendeu o mestre com todo o tipo de insulto e maldição conhecidos pela humanidade. Mas o velho guerreiro meramente ficou parado ali, calmamente. Finalmente, o jovem guerreiro finalmente ficou exausto. Percebendo que tinha sido derrotado, ele fugiu vergonhosamente.

Um tanto desapontados por não terem visto seu mestre lutar contra o insolente, os estudantes aproximaram-se e lhe perguntaram: "Como o senhor pôde suportar tantos insultos e indignidades? Como conseguiu derrotá-lo sem ao menos se mover?"

"Se alguém vem para lhe dar um presente e você não o aceita," o mestre replicou, "para quem retorna este presente?"

quinta-feira, 26 de outubro de 2006

Os Portais do Paraíso

Um orgulhoso guerreiro chamado Nobushige foi até Hakuin, e perguntou-lhe: "Se existe um paraíso e um inferno, onde estão?"

"Quem é você?" perguntou Hakuin.

"Eu sou um samurai!" o guerreiro exclamou.

"Você, um guerreiro!" riu-se Hakuin. "Que espécie de governante teria tal guarda? Sua aparência é a de um mendigo!".

Nobushige ficou tão raivoso que começou a desembainhar sua espada, mas Hakuin continuou:

"Então você tem uma espada! Sua arma provavelmente está tão cega que não cortará minha cabeça..."

O samurai retirou a espada num gesto rápido e avançou pronto para matar, gritando de ódio. Neste momento Hakuin gritou:

"Acabaram de se abrir os Portais do Inferno!"

Ao ouvir estas palavras, e percebendo a sabedoria do mestre, o samurai embainhou sua espada e fez-lhe uma profunda reverência.

"Acabaram de se abrir os Portais do Paraíso," disse suavemente Hakuin.

sábado, 21 de outubro de 2006

A Subjugação de um fantasma

Uma jovem e bela esposa caiu doente e finalmente chegou às portas da morte.

"Eu te amo tanto," ela disse ao seu marido, "Eu não quero deixar-te. Prometas que não me trocarás por nenhuma outra mulher! Se tu não o fizeres, eu retornarei como um fantasma e te causarei aborrecimentos sem fim!"

Logo após, a esposa morreu. O marido procurou respeitar seu último desejo pelos primeiros três meses, mas então ele encontrou outra mulher e se apaixonou. Eles tornaram-se noivos e logo se casariam.

Imediatamente após o noivado um fantasma aparecia todas as noites ao homem, acusando-o por não ter mantido sua promessa. O fantasma era esperto, também. Ela lhe dizia tudo o que acontecia e era falado entre ele e sua noiva, mesmo as mais íntimas experiências.

Sempre que dava à sua noiva um presente, o fantasma o descrevia em detalhes. Ela até mesmo repetia suas conversas, e isso aborrecia tanto o homem que ele não era capaz de dormir. Alguém o aconselhou a expor seu problema a um mestre Zen que vivia próximo à vila. Enfim, em desespero, o pobre homem foi buscar sua ajuda.

"Então sua ex-esposa tornou-se um fantasma e sabe tudo o que você faz," comentou o mestre, meio divertido. "O que quer que você faça ou diga, o que quer que você dê à sua amada, ela sabe. Ela deve ser um fantasma muito sábio... Realmente você deveria admirar tal fantasma! A próxima vez que ela aparecer, barganhe com ela. Diga a ela exatamente o que direi a você..."

Naquela noite o homem encontrou o fantasma e disse o que o mestre havia instruído:

"Você sabe tanto de mim que eu nada posso esconder-lhe! Se você me responder apenas uma questão, eu lhe prometo desfazer meu noivado e permanecer solteiro."

"Na verdade, eu sei que você foi ver um mestre Zen hoje! Diga-me sua questão." Disse o fantasma.

O homem levantou sua mão direita fechada e perguntou:

"Já que sabes tanto, diga-me apenas quantos feijões eu tenho nesta mão..."

Neste exato momento não havia mais nenhum fantasma para responder a questão

sábado, 14 de outubro de 2006

Nas Mãos do Destino

Um grande guerreiro japonês chamado Nobunaga decidiu atacar o inimigo embora ele tivesse apenas um décimo do número de homens que seu oponente. Ele sabia que poderia ganhar mesmo assim, mas seus soldados tinham dúvidas. No caminho para a batalha ele parou em um templo Shintó e disse aos seus homens:

"Após eu visitar o relicário eu jogarei uma moeda. Se a Cara sair, iremos vencer; se sair a Coroa, iremos com certeza perder. O Destino nos tem em suas mãos."

Nobunaga entrou no templo e ofereceu uma prece silenciosa. Então saiu e jogou a moeda. A Cara apareceu. Seus soldados ficaram tão entusiasmados a lutar que eles ganharam a batalha facilmente.

Após a batalha, seu segundo em comando disse-lhe orgulhoso:

"Ninguém pode mudar a mão do Destino!"

"Realmente não..." disse Nobunaga mostrando-lhe reservadamente sua moeda, que tinha sido duplicada, possuindo a Cara impressa nos dois lados.

quinta-feira, 12 de outubro de 2006

Nada Existe

Yamaoka Tesshu, quando um jovem estudante Zen, visitou um mestre após outro. Ele então foi até Dokuon de Shokoku. Desejando mostrar o quanto já sabia, ele disse, vaidoso:

"A mente, Buddha, e os seres sencientes, além de tudo, não existem. A verdadeira natureza dos fenômenos é vazia. Não há realização, nenhuma delusão, nenhum sábio, nenhuma mediocridade. Não há o Dar e tampouco nada a receber!"

Dokuon, que estava fumando pacientemente, nada disse. Subitamente ele acertou Yamaoka na cabeça com seu longo cachimbo de bambu. Isto fez o jovem ficar muito irritado, gritando xingamentos.

"Se nada existe," perguntou, calmo, Dokuon, "de onde veio toda esta sua raiva?"

segunda-feira, 9 de outubro de 2006

Impermanência

A prática e entendimento da impermanência não é apenas outra descrição de realidade. É uma ferramenta que nos ajuda em nossa transformação, cura e emancipação. Impermanência significa que tudo muda e que nada permanece o mesmo em dois momentos sucessivos. E embora as coisas mudem a todo momento, elas ainda não podem ser descritas com precisão como as mesmas ou como diferente do que eles eram a um momento atrás.

Quando hoje nós tomamos banho em um rio que nos banhamos ontem, é o mesmo rio? Heráclito disse que nós não podemos entrar duas vezes no mesmo rio. Ele tinha razão. A água no rio hoje é completamente diferente da água que nós tomamos banho ontem. Ainda é o mesmo rio. Quando Confúcio estava na margem de um rio assistindo seu fluxo, ele disse: "Oh, flui assim dia e noite, sem fim".

O insight da impermanência nos ajuda a ir além de todos os conceitos. Nos ajuda a ir além de mesmo e diferente, vindo e indo. Nos ajuda a ver que o rio não é o mesmo rio mas também não é diferente. Nos mostra que a chama que acendemos na vela antes de dormir não é a mesma chama queimando na manhã seguinte. A chama não é duas chamas diferentes, mas também não é a mesma chama.

Nós estamos freqüentemente tristes e sofremos muito quando as coisas mudam, mas a mudança e a impermanência têm um lado positivo. Graças à impermanência, tudo é possível. A própria vida é possível. Se um grão de milho não for impermanente, nunca pode ser transformado em um talo de milho. Se o talo não fosse impermanente, nunca poderia nos proporcionar a espiga de milho que nós comemos. Se sua filha não for impermanente, ela não pode crescer se tornando uma mulher. Então seus netos nunca vão se manifestar. Portanto em vez de se queixar da impermanência, nós deveríamos dizer, "Acolhida calorosa e vida longa a impermanência." Nós deveríamos estar contentes. Quando nós pudermos ver o milagre da impermanência, nossa tristeza e sofrimento passarão.

A impermanência também deveria ser entendida a luz do inter-ser. Porque todas as coisas inter-são, elas constantemente estão influenciando umas as outras. É dito que as asas de uma borboleta que agitam em um lado do planeta podem afetar o tempo no outro lado. As coisas não podem ficar do mesmo modo porque elas são influenciadas por tudo mais.

Todos nós podemos entender a impermanência com nosso intelecto, mas isto não é, contudo a verdadeira compreensão. Apenas nosso intelecto não nos conduzirá a liberdade. Não nos conduzirá ao esclarecimento. Quando somos sólidos e concentramos, nós podemos praticar o olhar em profundidade. E quando nós olhamos profundamente e vemos a natureza da impermanência, nós podemos ficar concentrados neste insight profundo. Isto é como o insight da impermanência se torna parte de nosso ser. Se torna nossa experiência diária. Nós temos que manter o insight da impermanência para poder ver e viver a impermanência todo o tempo. Se nós pudermos usar impermanência como um objeto de nossa meditação, nós nutriremos a compreensão da impermanência de tal modo que ela viverá diariamente em nós. Com esta prática, a impermanência se torna uma chave que abre a porta de realidade.

Nós também não podemos descobrir o insight da impermanência por só um momento e depois encobri-lo e ver tudo novamente como permanente. A maior parte do tempo nós nos comportamos como se nossos filhos sempre fossem estar em casa conosco. Nós nunca pensamos que em três ou quatro anos eles nos deixarão para se casar e ter as próprias famílias. Assim nós não valorizamos os momentos que nossos filhos estão conosco.

Eu conheço muitos pais cujos filhos aos dezoito ou dezenove anos deixam a casa e vão morar sozinhos. Os pais perdem os seus filhos e se sentem muito arrependidos. Os pais não valorizaram os momentos que eles tiveram com os seus filhos. O mesmo é verdade para maridos e esposas. Você pensa que seu cônjuge estará lá por toda sua vida, mas como você pode estar tão seguro? Nós realmente não temos nenhuma idéia de onde nossos parceiros estarão em vinte ou trinta anos ou mesmo amanhã. É muito importante se lembrar da prática da impermanência diariamente.

Quando alguém diz algo que te dá raiva e você deseja que ele fosse embora, por favor olhe profundamente com os olhos da impermanência. Se ele ou ela tivesse ido, o que você sentiria realmente? Você estaria contente ou se lamentaria? Praticando este insight pode ser muito útil. Há um gatha, ou poema que nós podemos usar para nos ajudar:

Com raiva na última dimensão

Eu fecho meus olhos e olho profundamente.

Trezentos anos no futuro

Onde você estará e onde eu estarei?

Quando nós estamos bravos, o que fazemos normalmente? Nós gritamos, e tentamos culpar a outra pessoa por nossos problemas. Mas olhando para raiva com os olhos da impermanência, nós podemos parar e podemos respirar. Com raiva do outro na dimensão última, nós fechamos nossos olhos e olhamos profundamente. Nós tentamos ver trezentos anos no futuro. Como estará você? Como estarei eu? Onde você estará? Onde eu estarei? Nós só precisamos inspirar e expirar, olhar para nosso futuro e o da outra pessoa. Nós não precisamos olhar para trezentos anos a frente. Poderia ser agora, cinqüenta ou sessenta anos no futuro quando nós estaremos falecidos.

Olhando para o futuro, nós vemos que a outra pessoa é muito preciosa para nós. Quando nós sabemos que nós podemos a perder a qualquer momento, nós não ficamos mais bravos. Nós queremos abraçar o outro e dizer: "Como é maravilhoso você ainda estar vivo. Eu estou tão contente. Como eu poderia estar bravo com você? Nós dois vamos morrer em algum dia, e enquanto nós ainda estamos vivos e juntos é bobagem ficar bravo um com o outro.”

A razão pela qual nós somos tolos o bastante para nos fazer sofrer e fazermos a outra pessoa sofrer é que nós esquecemos que nós e a outra pessoa somos impermanentes. Em algum dia quando nós morrermos, perderemos todas nossas posses, nosso poder, nossa família, tudo. Nossa liberdade, paz e alegria no momento presente são as coisas mais importantes que nós temos. Mas sem um entendimento desperto da impermanência, não é possível estar contente.

Algumas pessoas nem mesmo querem olhar para uma outra pessoa quando a pessoa está viva, mas quando a pessoa morre, eles escrevem obituários eloqüentes e fazem oferecimentos de flores. Naquele momento a pessoa morreu e não pode mais desfrutar da fragrância das flores. Se nós realmente entendemos e nos lembramos que aquela vida era impermanente, nós faríamos tudo o que podíamos para fazer a outra pessoa feliz aqui mesmo e agora mesmo. Se nós passamos vinte e quatro horas com raiva de nosso amado, é porque nós somos ignorantes sobre a impermanência.

"Com raiva na dimensão última/ Eu fecho meus olhos." Eu fecho meus olhos para praticar visualização do meu amado cem ou trezentos anos no futuro. Quando você se visualiza e ao seu amado trezentos anos no futuro, se sente muito feliz de vocês estarem vivos hoje. Você abre seus olhos e toda sua raiva se foi. Você abre seus braços para abraçar a outra pessoa e você pratica: "Inspirando você está vivo, expirando eu estou tão contente." Quando você fechar seus olhos para visualizar a outra pessoa trezentos anos no futuro, você está praticando a meditação na impermanência. Na dimensão última, não existe raiva.

Ódio também é impermanente. Embora nós possamos ser consumidos pelo ódio neste momento, se nós soubermos que o ódio é impermanente, nós podemos fazer algo para mudar essa situação. Da mesma forma que com a raiva, nós fechamos nossos olhos e pensamos, onde nós estaremos em trezentos anos? Com a compreensão do ódio na dimensão última, ele pode evaporar em um momento.

Porque somos ignorantes e nos esquecemos de impermanência, nós não nutrimos nosso amor corretamente. Quando nos casamos, nosso amor era grande. Nós pensávamos que se nós não tivéssemos um ao outro não poderíamos viver nem mais um dia. Porque não soubemos praticar a impermanência, depois de um ou dois anos nosso amor se tornou frustração e raiva. Agora desejamos saber como poderemos sobreviver mais um dia tendo que conviver com a pessoa que amamos tanto no passado. Nós decidimos que não há nenhuma alternativa: queremos o divórcio. Se nós vivermos com a compreensão da impermanência, cultivaremos e nutriremos nosso amor. Só assim ele durará. Você tem que nutrir e cuidar seu amor para ele crescer.

(Do livro “No death, no fear” – Thich Nhat Hanh)

quarta-feira, 13 de setembro de 2006

segunda-feira, 11 de setembro de 2006

Resumo

Não confie na pessoa, confie no ensinamento.
Não confie na palavra, confie no significado.

Zen

   Uma transmissão especial, fora das escrituras;
Sem depender de palavras ou letras;
Apontando diretamente à mente humana;
Contemplando a própria natureza e atingindo o estado de Buda.

Nirvana

Extinção da ignorância, o desejo e o despertar da Paz e da Liberdade interiores.
Um retorno à pureza original da natureza de Buda depois da dissolução do corpo físico.
É a perfeita liberdade de um estado incondicionado.

terça-feira, 13 de junho de 2006

Significados ... ou não ...

Um careca
não significa um meditador.
O mentiroso que não observa nenhum dever,
cheio de ganância e desejo:
que meditador ele?
Mas quem ignora
a dissonância
das qualidades más
--grande ou pequeno--
em todos os sentidos
trazendo a consonância:
ele é chamado um meditador.

264-265

domingo, 11 de junho de 2006

Raiva

Abandone a raiva,
depõe a vaidade,
vá além da corrente.
Quando por nome e forma
você não tem nenhum apego
--não tendo para tudo--
nenhum sofrimento, nenhuma tensão, invade.

DHAMMAPADA XVII:221

domingo, 2 de abril de 2006

Koan Moderno

Imagina: vais ter uma semana tranquila, blá, blá, e blá, blá...
Depois, dás contigo numa maratona infernal de trabalho, que te deixa a alma em controlo remoto e a cabeça planando fora do corpo.
Quando o fim de semana se aproxima, só queres que ele acelere.
Aí, constatas que o dia, qualquer dia, aqui ou nos antípodas, tem 24 horas. Saberás o que fazes com elas?




Texto original no Blog : Woman Like You

quarta-feira, 22 de março de 2006

Koan

Quem pensa que entendeu, se questiona;
Quem pensa que não entendeu, questiona os outros;
Quem entendeu, não diz nada;
E quem não entendeu, também não diz nada!

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2006

Amor x Sofrimento

No momento em que vemos o quanto é importante amar a nós mesmos, deixamos de causar sofrimento às pessoas.

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2006

Garotas

Tanzan e Ekido certa vez viajavam juntos por uma estrada lamacenta. Uma pesada chuva ainda caía, dificultando a caminhada. Chegando a uma curva, eles encontraram uma bela garota vestida com um quimono de seda e cinta, incapaz de cruzar a interseção.
"Venha, menina," disse Tanzan de imediato. Erguendo-a em seus braços, ele a carregou atravessando o lamaçal.
Ekido não falou nada até aquela noite quando eles atingiram o alojamento do Templo. Então ele não mais se conteve e disse:
"Nós monges não nos aproximamos de mulheres," ele disse a Tanzan, "especialmente as jovens e belas. Isto é perigoso. Por que fez aquilo?"
"Eu deixei a garota lá," disse Tanzan. "Você ainda a está carregando?"

sexta-feira, 27 de janeiro de 2006

Aperfeiçoamento Pessoal

O aperfeiçoamento pessoal se refere a todas as atividades diárias, que devem ser realizadas com cuidado e honestidade.
Assim, cada pequena tarefa reletirá a verdade.

quarta-feira, 18 de janeiro de 2006

Tornando o campo fértil

O mestre zen encarregou o discípulo de cuidar do campo de arroz. No primeiro ano, o discípulo vigiava para que nunca faltasse a água necessária; o arroz cresceu forte, e a colheita foi boa. No segundo ano, teve a idéia de acrescentar um pouco de fertilizante; o arroz cresceu rápido, e a colheita foi maior. No terceiro ano, ele colocou mais fertilizante. A colheita foi maior ainda, mas o arroz nasceu pequeno e sem brilho. - Se continuar aumentando a quantidade de adubo, não terá nada de valor no ano que vem - disse o mestre. “Você fortalece alguém, quando ajuda um pouco. Mas você enfraquece alguém, se ajuda muito.”

terça-feira, 10 de janeiro de 2006

Pessoas

As pessoas, de forma egoísta, julgam pertencer apenas a si mesmas. Por isso, comparam-se umas com as outras e acham que sofrem. Na verdade, elas são parte da natureza ...

domingo, 8 de janeiro de 2006

Sentimentos x Carma

Quando observamos e reconhecemos profundamente que nossas mentes estão preenchidas com sentimentos de ira, avidez (gula) e descontentamento, estamos tendo uma boa percepção e realmente enxergando nossas próprias vidas. A ira, a avidez e tal descontentamento representam nosso CARMA, a lei de causa e efeito. Nós nunca nos separamos do carma que cada um possui.

Altos e Baixos

"Há lucro e perda, difamação e honra, louvor e abuso, sofrimento e prazer neste mundo; os seres humanos que alcançam a Budicidade não são controlados pelas coisas externas, pois que elas desaparecem tão rapidamente como surgem."

Buda

sábado, 7 de janeiro de 2006

Compaixão

"Compaixão é reconhecer no outro sua natureza estável, perfeita, luminosa, sua condição verdadeira, quebrando o encanto dos jogos mentais que estão produzindo as complicações."

Lama Padma Samten

terça-feira, 3 de janeiro de 2006

Angústia ?

Está angustiado ?
Suba no parapeito da janela e pule !
Não consegue ?
Desca e estarás iluminado.