domingo, 29 de junho de 2014

terça-feira, 7 de janeiro de 2014

Deixar fluir...

"Toda a sociedade humana tem vivido sob um tipo de insanidade. É por isso que é tão difícil viver em estado de deixar fluir — porque isso tem sido condenado como se fosse indolência. Vai contra a sociedade obcecada pelo trabalho.

Deixar fluir significa que você começa a viver de uma maneira mais sã. Você não corre loucamente atrás do dinheiro, não trabalha constantemente; trabalha apenas por suas necessidades materiais.

Mas existem necessidades espirituais também! O trabalho é uma exigência para as necessidades materiais; deixar fluir é uma exigência para as necessidades espirituais. Porém, a maioria da humanidade tem sido boicotada de qualquer crescimento espiritual.

Deixar fluir é um dos espaços mais belos. Você simplesmente existe, sem fazer nada, apenas se senta silenciosamente, e a grama cresce por si mesma. Você simplesmente desfruta a canção dos pássaros, o verde das árvores, as cores psicodélicas e multidimensionais das flores.

Você não tem de fazer nada para experimentar a existência; você tem de parar de fazer. Você tem de estar em um estado absolutamente desocupado, sem tensões, sem preocupações.

Nesse estado de tranquilidade você entra em um estado de sintonia com a música que o cerca. Você subitamente se torna consciente da beleza do sol. Existem milhões de pessoas que nunca desfrutaram um pôr-do-sol, que nunca desfrutaram um alvorecer.

Elas não podem se dar ao luxo. Estão continuamente trabalhando e produzindo, não para si mesmas, mas para os astutos poderes dominantes, para os que estão no poder, aqueles que são capazes de manipular seres humanos.

Naturalmente eles lhe ensinam que o trabalho é algo nobre — é o interesse deles. E o condicionamento tornou-se tão profundo que nem mesmo você sabe por que não relaxa. As pessoas se esqueceram completamente da linguagem do relaxamento.

Elas foram produzidas para esquecer."

Osho, em "Dinheiro, Trabalho, Espiritualidade"

quarta-feira, 25 de dezembro de 2013

Os oito versos que transformam a mente

Com a determinação de alcançar
O bem supremo em benefício de todos os seres sencientes,
Mais preciosos do que uma jóia mágica que realiza desejos,
Vou aprender a prezá-los e estimá-los no mais alto grau.

Sempre que estiver na companhia de outras pessoas, vou aprender
A pensar em minha pessoa como a mais insignificante dentre elas,
E, com todo respeito, considerá-las supremas,
Do fundo do meu coração.

Em todos os meus atos, vou aprender a examinar a minha mente
E, sempre que surgir uma emoção negativa,
Pondo em risco a mim mesmo e aos outros,
Vou, com firmeza, enfrentá-la e evitá-la.

Vou prezar os seres que têm natureza perversa
E aqueles sobre os quais pesam fortes negatividades e sofrimentos,
Como se eu tivesse encontrado um tesouro precioso,
Muito difícil de achar.

Quando os outros, por inveja, maltratarem a minha pessoa,
Ou a insultarem e caluniarem,
Vou aprender a aceitar a derrota,
E a eles oferecer a vitória.

Quando alguém a quem ajudei com grande esperança
Magoar ou ferir a minha pessoa, mesmo sem motivo,
Vou aprender a ver essa outra pessoa
Como um excelente guia espiritual.

Em suma, vou aprender a oferecer a todos, sem exceção,
Toda a ajuda e felicidade, por meios diretos e indiretos,
E a tomar sobre mim, em sigilo,
Todos os males e sofrimentos daqueles que foram minhas mães.

Vou aprender a manter estas práticas
Isentas das máculas das oito preocupações mundanas*,
E, ao compreender todos os fenômenos como ilusórios,
Serei libertado da escravidão do apego.






*As oito preocupações mundanas são:

Gostar de ser elogiado / Não gostar de ser criticado
Gostar de ser feliz / Não gostar de ser infeliz
Gostar de ganhar / Não gostar de perder
Desejar ser famoso / Não gostar de ser ignorado



Via https://www.facebook.com/sobrebudismo



sábado, 14 de setembro de 2013

O Paraíso

Duas pessoas estavam perdidas no deserto. 
Elas estavam morrendo de inanição e sede. 
Finalmente, eles avistaram um alto muro. 
Do outro lado eles podiam ouvir o som de quedas d'água e pássaros cantando. 
Acima eles podiam ver os galhos de uma árvore frutífera atravessando e pendendo sobre o muro. Seus frutos pareciam deliciosos.
Um dos homens subiu o muro e desapareceu no outro lado.
O outro, em vez disso, saciou sua fome com as frutas que sobressaíam da árvore ali mesmo, e retornou ao deserto para ajudar outros perdidos a encontrar o caminho para o oásis.

sexta-feira, 13 de setembro de 2013

O Mais Importante Ensinamento

Um renomado mestre Zen dizia que seu maior ensinamento era este: Buddha é a sua mente.
De tão impressionado com a profundidade implicada neste axioma, um monge decidiu deixar o Monastério
e retirar-se em um local afastado para meditar nesta peça de sabedoria.
Ele viveu 20 anos como um eremita refletindo no grande ensinamento.

Um dia ele encontrou outro monge que viajava na através da floresta próxima à sua ermida.
Logo o monge eremita soube que o viajante também tinha estuda sob o mesmo mestre Zen.

"Por favor, diga-me se você conhece o grande ensinamento do mestre," perguntou ansioso ao outro.

Os olhos do monge viajante brilharam, "Ah! O mestre foi muito claro sobre isto.
Ele disse que seu maior ensinamento era:
Buddha NÃO é a sua mente."

quinta-feira, 12 de setembro de 2013

O Aperfeiçoamento Pessoal

Um praticante certa vez perguntou a um mestre Zen, que ele considerava muito sábio:
"Quais são os tipos de pessoas que necessitam de aperfeiçoamento pessoal?"

"Pessoas como eu." Comentou o mestre. 

O praticante ficou algo espantado:
"Um mestre como o senhor precisa de aperfeiçoamento?"

"O aperfeiçoamento", respondeu o mestre, "nada mais é do que vestir-se, ou alimentar-se..."

"Mas", replicou o praticante, "fazemos isso sempre! Imaginava que o aperfeiçoamento significasse algo mais profundo para um mestre."

"O que achas que faço todos os dias?" retrucou o mestre. "A cada dia, buscando o aperfeiçoamento, faço com cuidado e honestidade os atos comuns do cotidiano. Nada é mais profundo do que isso."

quarta-feira, 11 de setembro de 2013

Sem Motivo

Certo dia, três amigos passeavam e viram um homem no cume de um pequeno monte, sentado. Curiosos sobre o que estaria o homem fazendo, foram até ele, usando a trilha na encosta. Chegando lá, o primeiro disse:
"Olá, está esperando um amigo?"
"Não..." - respondeu o outro. O segundo homem replicou:
"Então está respirando o ar puro!"
"Não..." - disse o estranho. O terceiro amigo disse:
"Já sei! Você estava passando e resolveu olhar este belo cenário."
"Não, na verdade..." - repetiu o homem. Os três amigos então exclamaram ao mesmo tempo, estupefatos:
"Mas então, o que faz aqui?!"
O homem disse com um suave sorriso:
"Apenas ESTOU aqui..."

segunda-feira, 19 de agosto de 2013

Nada santo

Certa vez, Bodhidharma foi levado à presença do Imperador Wu, um devoto benfeitor buddhista, que ansiava receber a aprovação de sua generosidade pelo sábio. 
Ele perguntou ao mestre:
"Nós construímos templos, copiamos os sutras sagrados, ordenamos monges e monjas. Qual o mérito, reverenciado Senhor, da nossa conduta?" 
 
"Nenhum mérito, em absoluto", disse o sábio. 
 
O Imperador, chocado e algo ofendido, pensou que tal resposta com certeza estava subvertendo todo o dogma buddhista, e tornou a perguntar:
"Então qual é o Santo Dharma, o Primeiro Princípio?" 
 
"Um vasto Vazio, sem nada santo dentro dele", afirmou Bodhidharma, para a surpresa do Imperador. 

Este ficou furioso, levantou-se e fez sua última pergunta:
"Quem és então, para ficares diante de mim como se fosse um sábio?" 
 
"Eu não sei, Majestade", replicou o sábio, que assim tendo, dito virou-se e foi embora.

domingo, 14 de julho de 2013

O Sonho

Certa vez o mestre taoísta Chuang Tzu sonhou que era uma borboleta, voando alegremente aqui e ali. 
No sonho ele não tinha mais a mínima consciência de sua individualidade como pessoa. 
Ele era realmente uma borboleta. 
Repentinamente, ele acordou e descobriu-se deitado ali, um pessoa novamente.
Mas então ele pensou para si mesmo:
"Fui antes um homem que sonhava ser uma borboleta, ou sou agora uma borboleta que sonha em ser um homem?"

sábado, 16 de março de 2013

Conhecendo os Peixes


Certa vez Chuang Tzu e um amigo caminhavam à margem de um rio.
"Veja os peixes nadando na corrente," disse Chuang Tzu, "Eles estão realmente felizes..."
"Você não é um peixe," replicou arrogantemente seu amigo, "Então você não pode saber se eles estão felizes."
"Você não é Chuang Tzu," disse Chuang Tzu, "Então como você sabe que eu não sei que os peixes estão felizes?"

quarta-feira, 2 de janeiro de 2013

Verdadeira Riqueza


Um homem muito rico pediu a Sengai para escrever algo pela continuidade da prosperidade de sua família, de modo que esta pudesse manter sua fortuna de geração a geração.
Sengai pegou uma longa folha de papel de arroz e escreveu: "Pai morre, filho morre, neto morre."
O homem rico ficou indignado e ofendido. "Eu lhe pedi para escrever algo pela felicidade de minha família! Porque fizeste uma brincadeira destas?!?"
"Não pretendi fazer brincadeiras," explicou Sengai tranqüilamente. "Se antes de sua morte seu filho morrer, isto iria magoá-lo imensamente. Se seu neto se fosse antes de seu filho, tanto você quanto ele ficariam arrasados. Mas se sua família, de geração a geração, morrer na ordem que eu escrevi, isso seria o mais natural curso da Vida. Eu chamo a isso Verdadeira Riqueza."

quarta-feira, 23 de maio de 2012

Sem trabalho, sem comida


HYAKUJO, o mestre Zen chinês, costumava trabalhar com seus discípulos mesmo na idade de 80 anos, aparando o jardim, limpando o chão, e podando as árvores. 
Os discípulos sentiram pena em ver o velho mestre trabalhando tão duramente, mas eles sabiam que ele não iria escutar seus apelos para que parasse. 
Então eles resolveram esconder suas ferramentas.
Naquele dia o mestre não comeu. No dia seguinte também, e no outro.
"Ele deve estar irritado por termos escondido suas ferramentas," os discípulos acharam. "É melhor nós as colocarmos de volta no lugar."
No dia em que eles fizeram isso, o mestre trabalhou e comeu exatamente como antes. 
À noite ele os instruiu, simplesmente:
"Sem trabalho, sem comida."

domingo, 6 de maio de 2012

Cordel de Buddha


A VIDA DO BUDA EM VERSOS
 

( J. Palmeira Guimarães - Paraíba, 1977 )




A História que vou contar,
aconteceu realmente
há quase 26 séculos
em um país do oriente.
se alguém quiser comprovar
é bastante consultar
os livros de antigamente!


É a vida do Senhor Buda,

nascido um príncipe hindu,
seu pai - era Suddhodana,
rei de Kapilavastu,
sua mãe – a rainha Maya,
seu reinado – entre o Himalaya
e a montanha Sumeru.


É uma narrativa verídica,
mas fantástica, também.
fala de reis, de rainhas,
de amor, ódio, mal e bem.
tem santos, heróis, vilões,
aventuras e emoções
- como toda história tem.


Ela é simultâneamente

história humana e sagrada,
tem seus instantes dramáticos
como numa luta armada,
mas tem lances de ternura,
de alegria e de doçura,
como nos contos de fada.

É um episódio profano
e, ao mesmo tempo, divino
capaz de empolgar o santo
e comover o assassino,
terno – como uma canção,
doce – como uma oração
vibrante – que nem um hino.


É capaz de aproximar
todos os filhos de Deus:
evangélicos, católicos,
muçulmanos ou judeus
e até os mais renitentes
que se proclamam descrentes,
pensando que são ateus...


Vamos direto ao assunto

que o seu tempo é precioso
e eu sei que, nessas alturas,
você já está curioso
pela história prometida,
e história muito comprida
é coisa de mentiroso.


540 anos

Antes da Era Cristã,
pleno jardim do palácio,
onze horas da manhã.
A bela rainha Maya
contempla os véus do Himalaya
recostada em seu divã.


Havia se completado

o tempo da gestação.
A rainha, embevecida
na sua contemplação,
nem viu que a tarde chegara
e, de seu ventre brotara
o nobre filho varão!

 O parto ocorreu sem dor
como benção do Infinito.
A mãe só se apercebeu
quando ouviu do filho o grito
Nasceu perfeito e, ademais,
trouxe todos os sinais
do nascimento bendito.


Em quatro palanques de ouro

chegara o príncipe nu
trazido por quatro arcanjos
da montanha Sumeru,
em cujos cumes residem
divindades que presidem
a vida do povo hindu.


A notícia se espalhou

por toda a terra indiana,
o povo foi convidado
e o grande Rei Suddhodana
festejou com pompa e brilho
o nascimento do filho
durante toda a semana.


Acorreram visitantes

da Índia e de outros países,
trazendo ricos presentes
dos mais diversos matizes,
enquanto os pais da criança
riam, cheios de esperança,
imensamente felizes.


No meio dos convidados
o rei notou um asceta,
sentado, pernas cruzadas,
mãos postas, coluna ereta,
e viu naquela figura
a correção e a postura
de um verdadeiro profeta.







Sentindo um impulso estranho
- misto de ternura e espanto –
o rei pegou o menino,
desnudou-o de seu manto
e pediu para a rainha
conduzir a criancinha
aos pés daquele homem santo.


O ancião que, impassível,

fitava o céu, distraído,
ao ver o príncipe herdeiro
levantou-se comovido
fazendo, em meio a orações,
oito genuflexões
saudando o recém-nascido.


Depois, pediu que a rainha

pusesse o filho no colo
e cumpriu, em reverência,
um estranho protocolo:
Curvado, as mãos estendidas,
por oito vezes seguidas
tocou a testa no solo.


Mais tarde, o asceta explicou
ante a surpresa dos pais
que viu naquela criança
os 112 sinais
de sua origem divina,
previu toda a sua sina
e ainda lhes disse mais:


- “ O vosso Divino filho

será muito mais do que um rei,
reformará o universo,
trará uma nova Lei
e eu não estarei presente,
porque muito brevemente
deste mundo partirei!

“ Quanto a vós, nobre senhora,
cumpristes Lei Soberana
dando á luz a essa flor
de nossa árvore humana,
vossa missão foi cumprida
e deixarás esta vida
dentro de uma semana”...


O olhar do sábio parado,

sereno como uma praia
pousou aos pés do menino,
fitou a rainha Maya
e o ancião diluiu-se,
desapareceu, fundiu-se
entre as neves do Himalaia.


Tudo que o santo previra
no seu tempo aconteceu.
se o rei tinha alguma dúvida
esta desapareceu
quando, no sétimo dia,
depois desta profecia
sua esposa faleceu!

No outro dia, após o sonho,

convocou-se o Ministério,
o rei falou aos seus pares
sem revelar o mistério,
transmitindo ordens expressas
para chamarem às pressas
os oráculos do império.

O rei conduziu os sábios

para um salão reservado,
depois, chamou a esposa
que se sentou ao seu lado,
e ela fez todo o relato
sem omitir nenhum fato,
tudo o que havia sonhado.

O que mais surpreendeu

foi a atitude dos sábios:
ouviram tudo tranquilos,
com um sorriso nos lábios
como se o que ela dissesse
há muito tempo estivesse
escrito em seus alfarrábios



Todo o salão era um túmulo
não se ouvia o menor som.
Nisto, o ancião mais grisalho
falou num suave tom,
com ar sereno e risonho:
"Sol em Câncer ... este sonho,
vosso sonho é muito bom ...


"Vós, veneranda rainha,

dareis à luz um menino
de ciência maravilhosa,
com um mandato Divino
que, se quiser, num segundo
poderá salvar o mundo
e transformar-lhe o destino!"

Por isto, o rei Suddhodana

andava tão preocupado.
Ele não queria um santo,
profeta ou iluminado,
mas um simples sucessor
para seu continuador
no comando do reinado.

E assim cada dia o rei

andava mais grave e sério
pensando nas profecias
e em todo aquele mistério,
tramando um plano ladino
para fazer o menino
se interessar pelo Império!


Deu ordens pra que Siddarta
desde a sua tenra infância
vivesse um mundo de sonhos
sendo mantido à distância
da pobreza, da feiura,
da velhice, da amargura,
da dor e da ignorância.


Para manter o menino

cercado de tais cuidados,
mandou vir de toda parte
os jogos mais delicados,
as iguarias mais finas,
as mais belas dançarinas
e os mais saudáveis criados.


Quando Siddarta atingiu

os oito anos de idade,
o rei chamou seus ministros
e falou com seriedade:
"Preciso de um instrutor
que torne o meu sucessor
um monarca de verdade.”

"Quero um mestre que lhe ensine

a governar e a viver,
as Leis, os jogos, as artes,
os segredos do poder,
tudo o que a Ciência abarca
e que um futuro monarca
necessita de saber!


“Procurem por toda parte
o sábio mais instruído,
o mestre mais respeitado,
o Guru mais entendido.
Pensem o quanto quiserem
e falem quando tiverem
o problema resolvido.”


O Conselho de Ministros

acolheu do Rei o plano
e, por unanimidade,
sugeriu ao soberano
um nome considerado
o sábio mais respeitado
do territorio indiano:

- Só Visvamitra – disseram –

preenche o que desejais
e pode ensinar ao príncipe
todas as artes manuais,
as Ciências, as Escrituras,
as diferentes culturas
Idiomas e tudo o mais".


O rei aprovou o nome
Visvamitra foi chamado,
compareceu ao palácio
confessou-se muito honrado
e disse ao rei Suddhodana:
"Já na próxima semana
começa o aprendizado".
Para a surpresa do mestre
Siddarta era obediente,
humilde, falava pouco,
era alegre, sorridente,
respeitador, atencioso,
e, o que era mais espantoso,
um sábio, embora inocente!

O menino já sabia

ler, escrever, calcular,
Ciências, Religiões,
a arte de comandar,
era um perfeito doutor
em tudo que o professor
pretendia lhe ensinar.

Visvamitra pôs no quadro

difícil sentença escrita:
era uma estrofe sagrada,
profunda e muito erudita
tirada aos livros sagrados,
destinada a iniciados
ou gente muito erudita.


Pela complexidade
da sentença que escolheu
Visvamitra estava crente
no raciocínio seu
que aquele jovem rapaz
jamais seria capaz
de ler o que ele escreveu.

Siddarta olhou para o quadro,

sorriu respeitosamente
e, com surpresa do mestre,
leu tudo corretamente
e ainda pediu licença
pra interpretar a sentença
pormenorisadameute.


Com a permissão do mestre

Siddarta analisou tudo:
a prece, as suas origens,
seu sentindo e o conteúdo,
enquanto o mestre o escutava
e simplesmente aprovava,
surpreso, espantado, mudo.

E, como se não bastassem,
essas provas eloquentes
ou como se alguém pedisse
demonstrações mais patentes,
interpretou a oração
à luz da Religião
em dez línguas diferentes!


Mostrou, com toda humildade,
que dominava a Gramática,
Geografia, História, Música,
a Física e a Matemática
e, o que era mais surpreendente,
conhecia intimamente
a ciência da vida prática.

Entendia tudo de Arte,

lia os arcanos e as sortes,
lia a linguagem dos astros,
sabia tudo de Esportes
e, na arte de combater,
era capaz de vencer
aos lutadores mais fortes!


Discorria facilmente

sobre Pintura e Beleza,
dominava a espada o arco
com invejável destreza,
era um perito em amor
e um grande conhecedor
das coisas da Natureza!


Diante disto, Visvamitra
— mestre entre os mestres hindus —
prostrou-se aos pés do menino
e disse: "TU ÉS A LUZ,
NÃO SEREI MAIS TEU GURU,
NÃO SOU TEU MESTRE E SIM TU,
POIS ÉS GURU DOS GURUS"!...

E assim a todos os mestres

Siddarta rendia preito
de carinho, de amizade,
de gratidão e respeito,
mas em matéria de estudo
ele conhecia tudo,
já era um mestre perfeito.


Participava de jogos,

brincadeiras, distração.
Geralmente, era o primeiro
em qualquer competição,
mas o que mais lhe agradava
era quando se isolava
sozinho, em meditação...



Tratava do mesmo jeito

príncipes e serviçais,
via a todas as pessoas
como se fossem iguais,
respeitava a todo mundo
e tinha um amor profundo
pelas plantas e animais.


Nas competições de caça
que era obrigado a fazer
deixava escapar as aves
para não vê-las morrer
ou pra não tirar do amigo
que competia consigo
a alegria de vencer.

Embora considerado

cavaleiro sem igual,
perdia corridas ganhas
simulando passar mal,
para poupar energia
ao cavalo em que corria
e não forçar o animal!


Certa feita um de seus primos,
que era o príncipe Dewatta,
atirou num cisne branco
que passava pela mata,
acertou-o em pleno peito
e ficou bem satisfeito,
rindo de sua "bravata".
Siddarta que assistiu tudo
sentado junto à lagoa,
quando viu tombar a ave
saiu correndo, apanhou-a,
tirou- lhe a flecha do peito
e a tratou com tanto jeito
que ela logo ficou boa.

Dewata exigiu que o cisne

fosse a ele devolvido,
porque segundo o costume
há muito estabelecido
e já por todos aceito
o atirador tem direito
a qualquer bicho abatido.


Mas Siddarta recusou-se
e lhe disse: "Não, senhor,
o cisne agora está vivo
e seja lá como for
será minha propriedade
por direito de piedade
e onipotència do amor.''

Por incrível que pareça

esse caso tão banal
foi levado à decisão
do Conselho Imperial
que discutiu todo um dia
pra decidir quem teria
direito ao cisne, afinal.


Apôs muito discussão

e opiniões divergentes,
quando os ministros da corte
já estavam impacientes,
um vulto em forma de Luz,
veio, envolto num capuz
e falou para os presentes:


"— SE A VIDA POSSUI VALOR
CABE A TODOS PRESERVÁ-LA.
NO CASO, UM SALVOU A AVE
E O OUTRO TENTOU MATÁ-LA.
A AVE SERÁ MANTIDA
COM QUEM LHE SALVOU A VIDA
E NÃO COM QUEM QUIS TIRÁ-LA"!...


Com essa sentença, o vulto

encerrou todo o litígio.
O rei quis dar lhe um presente,
como prova de prestígio,
buscou o desconhecido,
mas ele havia sumido
sem deixar qualquer vestígio!

Siddarta beijou o cisne

como numa despedida,
depois, alçou-o ao espaço
em suave arremetida.
A ave partiu em paz,
agradecendo ao rapaz
por ter salvo a sua vida


Dewatta se desculpou
por ter causado a discórdia,
os dois primos se abraçaram
tudo voltou à concórdia,
Siddarta entrou no Budato
cumprindo o primeiro ato
de pura misericórdia.
.
Para ele, esse incidente
teve um profundo valor:
foi sua primeira chance
de praticar o amor
e a primeira vez, por certo,
que ele poude ver de perto
na dor do pássaro — A DOR!
.
O amor e a dor se tornaram
a partir daquele dia
sentimentos sobre os quais
Siddarta meditaria
e, em época futura,
serviriam de estrutura
à sua Filosofia...


A estratégia do rei
consistia em convidar
Siddarta para um passeio
em que pudesse mostrar
toda a extensão do reinado
e fazê-lo interessado
nas terras que iria herdar...

.
Pensava que quando o filho
visse a vastidão do império
passasse a encarar o trono
como um assunto mais sério
e perdesse o interesse
por meditações e prece
e todo aquele mistério.
.
O rei mandou preparar
a mais bonita carruagem
e deu ordens pessoalmente
aos súditos e à vassalagem
para que a comitiva
fosse saudada com VIVA
durante toda a passagem.


Feitos os preparativos,
aguardou com esperteza
um dia de primavera
cheio de sol e beleza,
de modo que o itinerário
tivesse como cenário
o esplendor da Natureza.
.

Ao receber o convite,

Siddarta que só vivia
trancado em seus aposentos
e raramente saía,
beijou o pai com ternura
e partiu para a aventura
na inocência da alegria.
.
Havia um clima de festas
o reino todo enfeitado,
o povo aplaudia o príncipe,
o rei estava empolgado
e sorria satisfeito,
pois tudo estava do jeito
que ele havia planejado.
Siddarta se deleitava
contemplando a Natureza:
rios, terras, campos, flores
e toda aquela beleza,
mas enquanto contemplava
seu coração mergulhava
numa profunda tristeza!
.



É que o jovem via as coisas
além de sua aparência,
procurando penetrá-las
no fundo de sua essência,
vendo com outra visão:
olhava com o coração,
via com a consciência.
.

No rosto dos camponeses

via um riso encomendado,
nas suas mãos calejadas
e no seu corpo alquebrado
Siddarta enxergava a dor
de seu irmão lavrador
pobre, oprimido e explorado .
.
Nas mulheres desdentadas,
magras do pouco comer
— que punham as mãos na boca
para o sorriso esconder —
via legiões suicidas
que davam as próprias vidas
para o reinado crescer...
.
Nas mãos magras das crianças,
inocentes, puras, calmas,
que, à passagem do cortejo,
tremiam, batendo palmas,
via protestos, reclamos,
clamando aos céus por seus amos,
rogando por suas almas!


Via o pescoço dos bois
na canga, arando arrozais.
Viu a exploração reinando
sobre filhos, mães e pais,
alimentando os tiranos,
escravizando os humanos
e humilhando os animais! .
.
.
Siddarta pediu ao rei
pra interromper a excursão
avistou uma mangueira,
sentou-se à sombra, no chão
e ficou ali, parado,
totalmente mergulhado
em longa meditação.
.
O rei ainda o esperou
durante mais de uma hora,
depois, impacientou-se
devido a grande demora,
recomendou-o aos vassalos,
atrelou os seus cavalos,
despediu-se e foi embora.
.
Ali, Siddarta bebeu
Sabedoria na fonte.
Vieram anjos do espaço
iluminaram-lhe a fronte
e ele só se levantou
depois que o sol se ocultou
lá nos confins do horizonte.
.
Durante a meditação
um fato estranho ocorreu.
Se foi acaso ou milagre
ninguém garante — nem eu —:
durante uma tarde inteira
não deu sol sob a mangueira,
a sombra não se mexeu!...
.

Assim, o rei Suddbodana

Viu se frustarem os planos
de interessar o menino
pelos tesouros profanos,
enquanto o tempo passava
e Buda se aproximava
de atingir dezoito anos.
.
Foi quando o rei teve a idéia
de apelar para a emoção.
Já que o filho não mostrava
pelo reinado ambição,
planejou então casá-lo
e, quem sabe, conquistá-lo
através do coração.
.
Convocou de novo a Corte
e confessou-se assustado
pois, conforme as profecias,
Buda era um predestinado
e abandonaria o Império
a não ser que algo mais sério
o prendesse no reinado.




“ — Siddarta já está na idade
(disse o rei com sutileza)
em que não há quem resista
aos encantos, à beleza
de um rosto jovem, formoso
e ao sorriso gracioso
de uma bonita princesa...
.
"Por isto, estou pretendendo,
como manda a tradição,
escolher entre as donzelas
de toda nossa nação,
uma que seja capaz
de provocar no rapaz
a mais violenta paixão".
.
Os ministros, como sempre,
acharam que o soberano
tinha pensado um esquema
"genial" e "sobrehumano",
Só um deles — o mais velho —
pediu licença ao Conselho
para completar o plano.
.
— "Eu sugiro a Vossa Alteza
que convoque esta semana
as mais prendadas donzelas
de toda a terra indiana,
e Siddarta escolherá
dentre elas a que será
a futura soberana"
.
O rei achou magnífica
a idéia do conselheiro
e, após o endosso real
ao plano do cavalheiro,
os ministros concordaram
e todos cumprimentaram
seu "ilustre companheiro"...
.
Espalharam-se editais
divulgando o grande dia
em que o príncipe Siddarta,
numa festa, escolheria
dentre as princesas mais belas
a mais prendada entre elas,
com quem depois casaria.
 .
No dia do grande evento
os jardins palacianos
regurgitavam de moças
em seus trajos indianos,
cada uma mais bonita
aguardando a hora bendita
de concretizar seus planos.
.
O rei tinha convidado
a plebe e a realeza,
foi a festa mais bonita
que se viu na redondeza.
Nunca em Kapilavastu
nem no território hindu
reuniu-se tanta beleza.
.

De seu palanque real,
Siddarta a tudo assistia,
cumprimentava as princesas
com natural cortesia,
a todas dava um presente,
sorria amistosamente
e o desfile prosseguia.
.
Dezenas de senhoritas
já haviam desfilado
sem que o jovem se mostrasse
por nenhuma interessado.
Eram todas muito belas,
porém por nenhuma delas
sentira-se apaixonado.
.
Quando a última princesa
pisou sobre a passarela
foi logo reconhecida
como de fato a mais bela,
e o príncipe estremeceu
tão logo a reconheceu
e se dirigiu a ela.
.
Todos queriam saber
Quem era essa jóia rara
que impressionou a Siddarta
de maneira assim tão clara.
Esclareceu-se afinal:
era de sangue real,
seu nome era Yasodhara.


.
Veio a se saber, mais tarde,
relendo os livros sagrados,
que Yasodhara e Siddarta
há muito estavam ligados
por laços superiores
e, em vidas anteriores,
já tinham sido casados.


Naquele instante, porém,
só ela e ele sabiam.
Por isto, os dois se entreolharam,
se abraçavam, se sorriam,
os demais olhavam tudo
cheios de um espanto mudo,
porém nada compreendiam.
.
Quando terminou a festa
que foi um deslumbramento
Suddhodana não cabia
em si, de contentamento,
e foi ao rei Suprabuda
pedir pro seu filho, Buda,
Yasodhara em casamento.
.
Suprabuda convocou
a Corte, amigos, parentes,
e recebeu Suddhodana
com honras e com presentes,
mas mostrou a Sua Alteza
que Yasodhara — a princesa —
já tinha três pretendentes.
.
Eram três príncipes jovens,
famosos no império inteiro:
Ardjuna — um mestre da esgrima,
Dewadatta— um grande arqueiro,
e Ananda, o mais respeitado,
por todos considerado,
como exímio cavaleiro!
.
Se Siddarta pretendesse
Yasodhara por consorte
teria que demonstrar
ser de todos o mais forte
e em três duelos formais
derrotar seus três rivais,
cada um no seu esporte!
.



Suddhodana agradeceu,
mas regressou ao castelo
bastante desanimado,
achando aquilo um flagelo
pensando que o seu rapaz
que era um amante da paz
não aceitasse o duelo.
.
Quando explicou tudo ao filho
seu mau humor se desfez,
Siddarta disse ao seu pai
marque a data de uma vez,
embora eu deteste luta,
travarei essa disputa,
tentarei vencer os três.
.
No dia, tudo ocorreu
como em casos semelhantes:
os suspiros da princesa,
os lances emocionantes,
Siddarta foi quem ganhou
e o povo comemorou
entre aplausos delirantes...


Não vou descrever; aqui
o baile monumental,
nem tampouco os rituais
ou o cerimonial
que deram ao casamento
um tom de acontecimento
de dimensão nacional.
.
Para o casal residir
o rei mandou levantar
ao lado do seu palácio
mansão espetacular
com jardins, piscinas, grutas,
cascatas, flores e frutas,
em meio a um grande pomar.
.
Por fora era um paraíso,
por dentro era um santuário.
Os mais suntuosos tapetes,
riquíssimo mobiliário,
tudo do mais alto nível,
de um bom gosto indiscutível
e um conforto extraordinário.
.



A mansão toda era um sonho,
mas o quarto nupcial
foi decorado a capricho
para envolver o casal
na atmosfera poética
de uma prisão magnética
própria para o. amor real.
.
Naquele mundo de luzes,
encantamento e poesia
dias e noites passavam
como se fossem o dia
entre o afeto e o carinho
o amor construiu seu ninho
e a paz sua moradia.
.
Mas... tudo tem face e dorso,
todo verso tem reverso
e, para não ser perfeita
a paz daquele universo
o rei tinha concebido
e fez ser obedecido
um plano muito perverso:
.
Mandou fazer três portões
que isolavam a mansão,
em cada portão, um guarda
com rigorosa instrução
pra vigiar noite e dia,
ninguém entrava ou saía
sem ter do rei permissão.
.
Apesar das precauções
e de todo o isolamento,
Siddarta ouvia mensagens
trazidas na voz do vento
e, sem sair da mansão,
voava pela amplidão
nas asas do pensamento...


Certa noite, ele acordou
durante um sonho profundo
e ouviu uma voz dizer-lhe:
"SOU O VENTO VAGABUNDO,
VEM COMIGO. POR FAVOR,
DEIXA O TEU NINHO DE AMOR,
VAMOS VER A DOR DO MUNDO!
.



"OUVE, EU SOU A VOZ DO VENTO
QUE VIVE SEMPRE A SOPRAR,
SUSPIRANDO POR REPOUSO,
MAS SEM NUNCA REPOUSAR.
A VIDA É TAMBÉM ASSIM:
UMA TORMENTA SEM FIM,
UM SOLUÇO SEM CESSAR.
.
"QUE PRAZER PODES SENTIR
NESSA CADEIA DE AMOR
TU QUE FOSTE O ESCOLHIDO
PARA SER O SALVADOR?!
COMO FICAR PRISIONEIRO
DE UM SONHO QUE É PASSAGEIRO
COMO TUDO, EXCETO A DOR?
.
"DESPERTA, FILHO DE MAYA,
SAI DO TEU ESQUECIMENTO,
VÊ QUE O CAMINHO DA VIDA
É IGUALZINHO AO DO VENTO:
SOLUÇOS, SUSPIROS, LUTA,
GUERRAS, TORMENTOS, DISPUTA,
MISÉRIA, DOR, SOFRIMENTO!
.
"ENQUANTO DORMES TRANQUILO,
PRESO A SUPOSTAS RAÍZES.
HÁ TRISTEZA EM TODA PARTE,
GUERRAS EM DIVERSOS PAÍSES,
FOME EM TODOS OS LUGARES,
DOENÇA EM TODOS OS LARES,
MILHÕES DE HOMENS INFELIZES!
.
"TUA HORA SE APROXIMA!
ABANDONA ESSA PRISÃO,
RENUNCIA A HIERARQUIA,
ROMPE OS GRILHÕES DA ILUSÃO,
VAI DESCOBRIR A VERDADE
E DAR PÁRA A HUMANIDADE
A PAZ E A LIBERTAÇÃO!
.
COMO PODES DESCANSAR
ENTRE APARENTES PODERES
E TE DEIXAR SEDUZIR
POR ESSES FALSOS PRAZERES,
TU QUE VIESTE PRA SALVAR
E, PELO AMOR, LIBERTAR
DA DOR A TODOS OS SERES?!"
.

  Quando o vento silenciou
Siddarta teve a certeza
de sua nobre missão
e, com toda a sutileza,
começou a imaginar
um modo de não magoar
o coração da princesa.


Sempre que os dois conversavam
Ele lhe dava a entender
que embora a amasse bastante
era bom ela saber
que ele já fora avisado
de que seria chamado
para um mais alto dever!
.
Apesar de ele falar
com todo jeito e cuidado
e fazê-lo em pleno leito,
no momento apropriado,
Yasodhara chorou tanto
que inundou com seu pranto
o peito do bem-amado.
.
Siddarta acordou-se um dia
decidido a caminhar,
chamou seu criado — Channa —
mandou-o ao rei avisar
que queria ir à cidade,
ver gente, andar à vontade,
respirar um outro ar.
.
O rei pensou em negar,
mas sentiu que não devia,
concordou com o passeio
embora sem alegria.
Deu instruções ao criado
e tudo foi combinado
para a manhã do outro dia.
.
Antes, mandou que enfeitassem
os caminhos e a cidade.
para que o filho só visse
beleza e felicidade
e não pudesse encontrar
nada capaz de magoar
sua sensibilidade.
.



Recolheram-se mendigos,
pobres, cegos, aleijados,
as ruas foram varridas.
os prédios todos lavados.
Doentes, feridos, leprosos
e até os homens idosos
foram todos retirados.
.
Siddarta saiu com Channa
no outro dia bem cedinho,
aplaudido pelo povo
durante todo o caminho.
De todas as direções
vinham manifestações
de entusiasmo e carinho.
.
As ordens de Suddhodana
eram sempre respeitadas:
as casas estavam limpas,
as avenidas lavadas,
as pessoas bem vestidas,
as ruas todas varridas;
e as praças embandeiradas.


Tudo transcorria bem,
Siddarta estava contente
quando, de forma imprevista,
surgiu bem na sua frente
um mendigo esfarrapado,
velho roto, esclerosado,
- um arremedo de gente!
.
O velho saiu aos gritos
pulando de entre a folhagem
e prostrou-se em.plena estrada.
na frente da carruagem,
chamando a atenção de Buda,
implorando a sua ajuda,
interrompendo a passagem.
.
Siddarta desceu do carro,
conversou com o ancião,
contemplou o seu estado
com profunda compaixão,
deu-lhe o dinheiro que tinha
e, como a noite já vinha,
regressou para a mansão.
.



Trancou-se em seus aposentos
chamou Yasodhara e disse
para não ser perturbado
e, sem que ninguém o visse,
meditou por vários dias
sobre a dor, as agonias
e a Solidão da Velhice.
.
Saiu da meditação
bastante transfigurado,
não se alimentava bem,
nada era de seu agrado.
Seu desejo era partir,
desaparecer, sumir,
abandonar o reinado!
.
Quando o rei soube de tudo
através de um seu criado,
ficou bastante abatido,
sentiu-se desmascarado.
Sonhava todos os dias
pensando nas profecias,
cada vez mais preocupado
.
Siddarta, então, disse ao rei:
"Abra os portões, um por um,
quero sair amanhã
como um cidadão comum,
sem pompas, sem carruagem,
sem guardas, sem vassalagem
e sem aviso nenhum."
.
Embora contra a vontade
o rei lhe deu permissão,
Siddarta saiu com Channa
misturou-se à multidão,
conversou com lavradores,
ladrões, sábios, mercadores,
como homem, como irmão.


Sem as insígnias reais
percorreu toda a cidade
falou com pobres e ricos
discutiu com a mocidade.
Quanto mais se aprofundava
mais sentia que ansiava
por conhecer a Verdade
.



Foi a templos, hospitais,
prisões, asilos, escolas,
viu milhares de mendigos
exibindo-lhe as sacolas,
viu a dor e a ignorância
e chorou de ver a infância
faminta, pedindo esmolas.
.
Ao se afastar das muralhas
da cidade, rumo ao Norte,
Siddarta ia deparar
uma emoção bem mais forte:
viu, sem poder fazer nada,
a luta desesperada
entre um moribundo e a morte
.
Channa e o príncipe andavam
quando surgiu, no caminho,
todo coberto de chagas
um camponês bem velhinho.
A peste o tinha atacado
e o povo o tinha largado
pra morrer ali, sozinho.
.
Quase morto, já sem forças,
o ancião suplicava:
queria morrer em casa
onde a família o esperava.
Só encontrava indiferença,
porque a sua doença,
além do mais, contagiava
.
Ante o protesto de todos
inclusive seu criado,
Siddarta pegou o velho,
pôs nos ombros com cuidado,
levou-o à casa, correndo.
O velho acabou morrendo,
mas antes foi confortado,
.
Siddarta viu, transtornado,
sem nada poder fazer,
a luta do homem com a morte
e a morte, por fim, vencer.
Quando tudo consumou-se
chamou Channa e retirou-se
sem nada mais querer ver.

 
Recolheu-se em seu palácio
num sofrimento profundo,
meditou sobre a angústia
e a morte do moribundo,
vendo no acontecimento
a dor e o sofrimento
dos homens todos do mundo.
.
Viu que a morte torna iguais
o pobre e o potentado
e o sofrimento nivela
o analfabeto e o letrado
que a riqueza acaba em ruína
e que o próprio amor termina
na perda do ser amado!
.
Viu que o homem vem ao mundo
num grito de sofrimento,
sofre a doença, a velhice,
sofre da morte o tormento
e volta em outra existência,
para cumprir a sequência
de dor e padecimento...
.
Depois de meditar muito
chegou a uma conclusão:
não lhe era mais possível
permanecer na mansão,
resolveu que iria embora,
sair pelo mundo afora,
cumprir a sua missão!
.
Renunciou ao reinado,
hierarquia, propriedade,
esposa, fortuna, luxo,
para buscar a Verdade
e as origens da dor,
dedicar-se ao puro amor,
libertar a humanidade!
.
Chamou, então, Yasodhara
apertou-a ao coração,
explicou-lhe as razões todas
de sua resolução
disse-lhe o quanto sentia,
mas que não mais poderia
permanecer na ilusão.
.


  - "VOCÊ ME TEM DE DIREITO,
MAS DE FATO NÃO ME TEM.
SAIBA QUE EU LHE AMO BASTANTE
LHE DESEJO TODO O BEM.
EU REGRESSAREI POR CERTO,
MAS SÓ VOLTAREI LIBERTO,
PARA SALVÁ-LA TAMBÉM."
.
A princesa tentou tudo
para o fazer desistir,
por fim, falou-lhe do filho
dos dois, que estava por vir.
Siddarta ouviu comovido,
mas já estava decidido
e então tratou de partir.


Todos dormiam na Corte,
era uma noite estrelada.
Ele beijou Yasodhara
e saiu sem dizer nada,
mandando Channa — o vassalo —
preparar o seu cavalo
para aquela madrugada.
.
O criado ainda lhe disse:
— "Deixai parentes e amigos,
prazeres, riquezas, trono,
para viver com mendigos
pelas montanhas geladas,
entre as feras esfomeadas
e mil outros inimigos?!
.
"Vós que tendes a fortuna
e o privilégio do trono,
largais toda essa riqueza
para viver no abandono,
sem ter nem sequer direito
ao terno calor de um leito
nas vossas noites de sono?
.
"Pensai na angústia do rei
ao notar vossa partida,
refleti no desespero
de vossa esposa querida
que vos deu o seu amor!
E nós, teus servos, Senhor,
que será de nossa vida?!"
.



Siddarta abraçou o amigo
e, sem querer ser severo,
olhou-o dentro dos olhos
e disse num tom sincero:
"PODES FICAR DESCANSADO,
TUDO ISTO JÁ FOI PENSADO,
É ISTO MESMO QUE EU QUERO.
.
"O AMOR QUE, POR COMODISMO,
É CAPAZ DE SE PRENDER
ÀS CRIATURAS A QUE AMA
PRA DELAS TIRAR PRAZER,
É UM SENTIMENTO EGOÍSTA,
FALSO, IMPURO, EXCLUSIVISTA,
QUE DEVEMOS COMBATER!
.
CULTIVAR UM TAL AMOR
É SIMPLES HIPOCRISIA.
AMO MEU PAI E A PRINCESA
MAS DO QUE A MINHA ALEGRIA
JUSTAMENTE POR AMÁ-LOS
VOU PARTIR, PARA SALVA LOS,
QUANDO EU VOLTAR ALGUM DIA".
.
O criado, banhado em pranto,
mostrava o quanto sofria.
Siddarta então lhe falou:
"PREPARA OUTRA MONTARIA,
JÁ QUE ÉS TÃO LEAL AMIGO,
CAMINHA UM POUCO COMIGO,
VEM ME FAZER COMPANHIA".


Montado no seu cavalo,
deu uma última olhada,
despediu-se dos jardins
de sua prisão dourada,
fazendo um aceno mudo,
num gesto de quem diz tudo
sem precisar falar nada.
.
Fitou o céu estrelado,
as mãos sobre o coração,
saudou a lua e as estrelas
como a pedir proteção.
Lá longe, os astros brilharam,
num sinal de que aprovaram
a sua resolução...
.



Channa seguia ao seu lado
sem entender o mistério.
Siddarta bastante alegre
o criado calado e sério.
Cavalgaram noite afora
até que, ao romper da aurora,
chegaram no fim do império.
.
Ali mesmo na fronteira
do que fora o seu reinado,
Buda desceu do cavalo,
despediu-se do criado
e lhe pediu, com amor,
um derradeiro favor:
levar ao rei um recado.
.
Despiu-se de sua túnica
e do cinturão real,
cortou toda a cabeleira
com a espada imperial
e recomendou a Channa
que entregasse a Suddhodana
com seu amor filial:
.
“ - LEVA TODAS ESSAS COISAS
DE QUE NÃO PRECISO MAIS,
MEU CAVALO, MINHAS JÓIAS,
E AS MINHAS VESTES REAIS,
DIZ À SUA MAJESTADE
QUE EU VIREI COM A VERDADE
OU NÃO VOLTAREI JAMAIS! “


Em torno de Rajagriha
- terras do rei Bimbisara
Existem cinco montanhas,
São: Bipula, Baibhara,
Tapovan, Sailagiri
E, ao leste, Ratnagiri.
Nesta, Siddharta ficara.
.
No dorso dessa montanha
de penhascos escarpados
descobriu uma caverna
onde pôs seus pés sagrados,
fez muitas meditações
entre tórridos verões
e crepúsculos gelados.
.



Passava os dias e as noites
em meditação tranqüila
possuía o manto amarelo,
a marmita e uma mochila.
Quando a comida acabava
ele vinha e mendigava
nos arredores da vila.
.
Brincava com as crianças,
conversava alguns momentos,
retribuía as esmolas
com mil agradecimentos,
voltava ao seu santuário,
na caverna, solitário,
entregue aos seus pensamentos.
.
Geralmente ao meio dia
sentava-se a meditar,
ficava até meia noite
em vigília, sem parar,
levantava, olhava a lua,
deitava na relva nua
até o sol acordar.
.
Quando a aurora começava
a despontar no horizonte,
Siddharta saudava o sol,
descia correndo o monte,
até chegar ao baixio,
tomava banho de rio
e bebia água da fonte.
.
Junto às montanhas viviam
uns estranhos ermitões,
faquires fanatizados
que, entre horríveis contorsões,
seu próprio corpo açoitavam
e assim se auto-mutilavam
com mil mortificações.
.
Certo dia, o Senhor Buda
tomado de compaixão,
foi ao chefe dos faquires
e quis saber a razão
daquela exibição fútil,
daquele flagelo inútil,
e ouviu esta explicação:


"Segundo o que está escrito
em nosso livro sagrado,
quem mortifica seu corpo
até ficar mutilado
e encontra, na dor, a morte,
modifica a sua sorte
e se livra do pecado".
.
Buda, então, lhe replicou:
"VÊS ESSA NUVEM, IRMÃO?
VEM DO MAR FEITO DE RÍOS,
VIRA GOTA, VOLTA AO CHÃO,
SERÁ RIO, SERÁ MAR,
E TORNARÁ A VOLTAR
AO SEIO DA CRIAÇÃO ...
.
VÊ, POIS, MEU CARO ERMITÃO,
QUE O QUE É SEMPRE SERÁ...
ESSA MORTIFICAÇÃO
EM NADA TE MUDARÁ.
E AGORA PEÇO QUE FALES:
PORQUE JUNTAR TANTOS MALES
A VIDA QUE JÁ É MÁ"?!
.
"NOSSO CORPO É NOSSO TEMPLO
QUE DEVE SER PRESERVADO,
MORADA DE NOSSA ALMA
E SEU REFUGIO SAGRADO
POR ONDE OLHAMOS P'RA FORA.
COMO AGUARDAMOS A AURORA,
SE O CORPO FOR MUTILADO?!"
.
O velho ermitão lhe disse:
"Poupai, pois, o corpo vosso.
Eu já escolhi meu caminho,
mudá-lo agora não posso.
Deixai que eu siga sozinho,
segui o vosso caminho,
nós seguiremos o nosso".
.
Buda voltou à caverna
com mais esse ensinamento:
cada homem faz de sua vida
sua glória ou seu tormento,
e escreve a própria sentença
conforme o modo que pensa
e o grau de discernimento!




.
Depois, em meditação,
Buda pode perceber
este estranho paradoxo:
o desejo de viver
faz do homem um suicida,
ou seja, é o apego à vida
que faz o homem morrer.
.
Era o fio-da-meada
esta nova conclusão,
querendo penetrar mais
no fundo dessa questão,
recolheu se novamente,
voltou-se para o nascente
e entrou em contemplação.


Agora, se contemplava,
já não meditava mais,
totalmente abstraído
dos sentidos materiais,
liberto das sensações,
dos sonhos, das emoções,
livre das ondas mentais...
.
Muitas vezes se deixava
permanecer nesse estado
dias e noites seguidos,
alheio ao mundo extasiado,
entregue a contemplação,
sem ter a menor noção
que o tempo tinha passado!
.
Um dia, Ele caminhava
na planície, após o banho,
viu uma nuvem de pó
que acompanhava um rebanho
seguido de seus pastores,
e escutou uns estertores,
um certo balido estranho.
.
Seguiu, de perto, as ovelhas,
apurou bastante o ouvido
até poder descobrir
de onde partira o gemido,
e notou um cordeirinho
desviado do caminho,
muito causado e ferido.
.



Ao lado do borreguinho
saltitava um seu irmão,
enquanto sua mãe berrava
na mais tremenda aflição,
sofrendo pelo destino
do filhote pequenino
que agonizava no chão.
.
Diante daquele imprevisto
Buda se apiedou tanto
que pegou o cordeirinho
enrolou-o no seu manto,
pôs no colo, de mansinho,
e o conduziu com o carinho
de quem conduzisse um santo!
.
Despediu-se da montanha
e seguiu em romaria,
disposto a ir com o cordeiro
aonde o rebanho iria,
a ovelha a fazer-lhe festa,
correndo pela floresta,
dando pulos de alegria...
.
Siddarta pode sentir
nessa gratidão materna,
que valia muito mais
uma atitude fraterna
de amor e compreensão
que um ano de reclusão
no fundo de uma caverna...


Ao meio-dia os pastores
pararam para almoçar
Os carneiros, estrupiados,
trataram de se deitar.
Siddharta olhava os caprinos
temendo por seus destinos,
e resolveu perguntar:
.
"RESPONDEI-ME IRMÃOS PASTORES,
ONDE IDES E ONDE LEVAIS,
EM MEIO AO SOL INCLEMENTE
ESSES POBRES ANIMAIS
NESSES CAMINHOS POEIRENTOS?
VEDE, ELES ESTÃO SEDENTOS
E JÁ NÃO SUPORTAM MAIS!"
.



— "O nosso rei, Bimbisara
mandou-nos arrebanhar
100 cabras e 100 carneiros
que ele irá sacrificar
hoje à noite, após o ofício,
e ofertar em sacrifício
aos deuses, no pé do altar"
.
Siddarta pensou e disse:
"NÃO TENDES CULPAS, EU SEI.
ESTAIS APENAS CUMPRINDO
AS ORDENS DE VOSSO REI.
IREI CONVOSCO À CIDADE,
VEREI SUA MAJESTADE.
EU VOS ACOMPANHAREI!"
.
Quando o sol baixou um pouco
amenizando o mormaço,
o rebanho foi tangido,
Siddarta seguiu lhe o passo,
percorreu todo o caminho
conduzindo o carneirinho
ferido, embaixo do braço.
.
Atingiram a cidade
na hora do sol se pôr.
A população inteira
quis ver o estranho pastor
em cujos olhos brilhava
uma luz que irradiava
compreensão, paz e amor.
.
Os soldados que faziam
sentinela, no portão,
olharam para Siddarta
como a uma aparição.
Não só lhe deram passagem,
mas renderam-lhe homenagem,
tal era a sua expressão.
.
As mulheres e as crianças
entraram correndo atrás
e perguntavam: “QUEM É
ESSE HOMEM, E QUE FAZ?
CAMINHA COM TANTA GRAÇA
E DEIXA POR ONDE PASSA
UMA SENSAÇÃO DE PAZ!"





Diziam uns: "É UM PRÍNCIPE
QUE ABANDONOU SEU IMPÉRIO
E EMBRENHOU-SE NAS MONTANHAS,
DEDICADO AO MONASTÉRIO."
Outros diziam: É UM SANTO,
e tocavam no seu manto,
com ar respeitoso e sério.
.
Siddarta nada escutava
daquela especulação,
andava altivo e sereno
em plena meditação,
até que um guarda o pegou
pelo braço e o afastou
da pequena multidão.
.
Ele ainda saudou à todos
com um gesto de carinho,
acompanhou o soldado
e, quando se viu sozinho,
foi seu primeiro cuidado
buscar um canto isolado
e tratar do borreguinho.
.
Foi ele mesmo à cozinha,
conseguiu água fervida,
tratou bem do ferimento,
deu ao bicho água e comida
e o deixou-o em companhia
da ovelha que tudo via
satisfeita e agradecida.
.
Um pastor falou ao rei
que um homem desconhecido,
habitante da montanha,
tinha o rebanho seguido.
Tipo estranho — meigo e forte
e que salvara da morte
um cordeirinho ferido.
.
Na sala dos holocaustos
havia um grande bulício:
Brâmanes cantavam mantras
iniciava-se o ofício,
as ovelhas alinhadas,
de cabeças amarradas,
prontas para o sacrifício.
.




Quando o rei entrou na sala
começou o ritual:
um sacerdote, que orava,
parou, pegou o punhal
e foi para a cabra presa,
atada, inerme, indefesa,
ia sangrar o animal!
.
Nisto, Buda entra correndo
e se interpõe, circunspecto
entre o sacerdote e a cabra!
Tão grave era o seu aspecto
que o sacerdote estacou,
e o próprio rei o encarou
ante o espanto de seu séquito!


Um silêncio indescritível
tomou conta da platéia.
Você que lê esta história
pode lazer uma idéia
do horror generalizado
que esse gesto inesperado
causou naquela assembléia!
.
O rei olhou pra Siddarta
do alto de sua nobreza
e viu, além da coragem,
da bravura e da franqueza
daquele mendigo pobre,
um porte sereno e nobre,
um toque de realeza!
.
Depois, voltou a sentar-se
já mais tranquilo e refeito.
Aí, Siddarta curvou-se,
as mãos postas frente ao peito,
pleno de serenidade,
saudou sua Majestade
com o mais profundo respeito.
.
O rei não só respondeu
do príncipe a saudação,
mais ainda lhe fez um gesto
em que dava permissão
pra que Siddarta falasse
e à assembléia explicasse
as razões da intromissão.
.



— "PERDOAI-ME MEU NOBRE REI
POR INTERROMPER O OFICJO,
MAS NÃO PUDE PRESENCIAR
O RITUAL DESDE O INÍCIO.
SEI QUE NÃO AGI DIREITO,
MAS EU NÃO TINHA OUTRO JEITO
DE EVITAR O SACRIFÍCIO.
.
"VÓS SABEIS QUE A VIDA É FRÁGIL
TODOS A PODEM TIRAR,
EMBORA NENHUM DE NÓS
TENHA O PODER DE A CRIAR.
A VIDA É UM DOM PRECIOSO,
DIVINO, MARAVILHOSO,
QUE TODOS QUEREM GOZAR...
.
"ESSES CARNEIROS NOS OLHAM
A VÓS, A MIM, AOS PASTORES,
COMO A SANTOS, COMO A DEUSES,
COMO A SERES SUPERIORES.
NO ENTANTO, QUANDO OS MATAMOS
NÓS TODOS NOS COMPORTAMOS .
COMO SERES INFERIORES!
.
"O HOMEM QUE, NA AFLIÇÃO
DE SEUS MOMENTOS CRUCIAIS,
SUPLICA AOS DEUSES CLEMÊNCIA
E JURA NÃO PECAR MAIS.
MATA ANIMAIS. IRMÃOS SEUS,
ELE - QUE É IGUAL A UM DEUS
AOS OLHOS DOS ANIMAIS!


"PROCEDEM DESSAS OVELHAS
A LÃ E O PÊLO MACIO
QUE AQUECEM OS NOSSOS CORPOS
NAS LONGAS NOITES DE FRIO,
SEU LEITE SALVA AS CRIANÇAS,
QUE CHORAM. SEM ESPERANÇAS,
COM O ESTÔMAGO VAZIO ...
.
"NOSSO SANGUE, MAJESTADE,
TEM A MESMA COR VERMELHA
E SE NUTRE, E SE ALIMENTA
DA MESMA ETERNA CENTELHA
QUE ANIMA E NUTRE IGUALMENTE
O SANGUE PURO E INOCENTE
DE UMA CABRA OU DE UMA OVELHA!
.



"A MESMA CHISPA DIVINA
QUE HABITA O MEU CORAÇÃO
HABITA O DESSE CARNEIRO,
MEU SEMELHANTE E IRMÃO.
FAZER. UM BICHO MORRER
É O MESMO QUE INTERROMPER
O CICLO DA CREAÇÃO!...
.
"ESTÁ NOS LIVROS SAGRADOS
(E TODOS VOS O SABEIS)
A LEI DE CAUSA E EFEITO
QUE É A MAIS SÁBIA DAS LEIS
PRECONISA EM SEUS ANAIS:
REIS JÁ FORAM ANIMAIS
E ANIMAIS JÁ FORAM REIS!
.
NÃO SERÁ COM O SACRIFÍCIO
DE UM ANIMAL IMOLADO
QUE OS DEUSES-VIRÃO SALVAR
A NINGUÉM DE SEU PECADO.
UM DEUS QUE É JUSTO E CLEMENTE
NÃO PODE FICAR CONTENTE
VENDO SANGUE DERRAMADO!
.
"A JUSTIÇA UNIVERSAL
VÊ TODOS NOSSOS MOMENTOS
E É SUMAMENTE IMPLACÁVEL
EM SEUS SÁBIOS JULGAMENTOS,
PREMIANDO A MAUS E BONS
CONFORME AS SUAS AÇÕES
PALAVRAS E PENSAMENTOS!
.
"SEGUNDO ESSA LEI DIVINA
TODOS OS SERES CRIADOS
DARÃO CONTA, PESSOALMENTE,
DOS ATOS CERTOS E ERRADOS
SEJAM PUROS OU IMPUROS
E, ASSIM, TODOS OS FUTUROS
SÃO O FRUTO DOS PASSADOS!
.
"SE NINGUÉM SACRIFICASSE
ESSES POBRES INFELIZES,
SE TODOS COMESSEM FRUTOS,
GRÃOS, FOLHAS, ERVAS, RAÍZES,
NÃO HAVERIA MAIS GUERRA,
REINARIA PAZ NA TERRA
TODOS SERIAM FELIZES".





Quando o príncipe Siddarta
interrompeu seu sermão,
toda a assembléia, em silêncio,
tributou-lhe aprovação.
Então, o rei levantou-se
juntou as mãos e curvou-se
saudando-o como a um irmão.
.
Nesta altura, os sacerdotes
curvaram-se envergonhados,
derrubaram um por um
seus altares inflamados
jogando fora os punhais
com que há pouco os animais
estavam sendo sangrados.
.
No outro dia, Bimbisara
que era um rei muito correto
mandou sua assessoria
elaborar um projeto
que ele transformou em Lei.
Eis o que dizia o rei
no texto de seu decreto:
.
FICA, A PARTIR DESTA DATA,
DECRETADA A PROIBIÇÃO
NOS ESTADOS E PROVÍNCIAS
DE TODA NOSSA NAÇÃO,
DE SE MATAR ANIMAIS,
SEJA PARA RITUAIS
OU PARA ALIMENTAÇÃO.
.
Querendo dar a Siddarta
prova de agradecimentos,
Bimbisara ofereceu-lhe
os melhores aposentos
e mais a sua amizade,
pra ele ficar na cidade
transmitindo ensinamentos.
.
Siddarta agradeceu muito
as ofertas imperiais,
mas disse que o seu destino
não era as pompas reais
nem as luzes da cidade.
Ia em busca da Verdade,
precisava saber mais.
.

  Disse-lhe o rei: Não nasceste
para viver no abandono,
mendigando pelas vilas
pobre como um cão sem dono.
Terás o meu reino inteiro,
pois como eu não tenho herdeiro
Tu herderás o meu trono".
.
— "Já que insistis — disse Buda —
com a maior humildade —
Eu também tive o meu reino,
trono, esposa, propriedade
e a tudo renunciei,
para conhecer a Lei
e procurar a Verdade.


"As montanhas são meu Lar,
a natureza é o meu této.
Um dia, se eu descobrir
a Luz do Saber Correto,
virei por aqui de novo
para ensinar vosso povo
e resgatar vosso afeto".
.
Vendo que a sua insistência
de nada lhe adiantasse,
o rei abraçou o príncipe,
depôs-lhe um beijo na face,
despediu-se sorridente
desejando ardentemente
que Siddarta triunfasse.
.
Já se passaram seis anos
de pesquisas incessantes,
de vigílias, de jejuns
e meditações constantes.
Siddarta permanecia
buscando a Sabedoria
e com a mesma sede de antes!
.
Na .saída da cidade
soube, de fontes diretas,
que nos bosques da montanha
havia sete profetas,
homens de ciência rara,
que eram Udra e Alara
com cinco outros ascetas.
.



Foi conversar com os sábios,
ponderou suas verdades,
discutiu seguidamente
com as sete celebridades
sobre a parte exotérica
e toda a ciência esotérica
dos Vedas e Upanixades.
.
Achou bastante profundo
o que esse grupo ensinava,
mas não era, essencialmente,
o que Siddarta buscava.
Despediu-se dos ascetas
sem as resposta concretas
que a sua alma procurava
.
A cada instante sentia
que a busca não era vã.
Atingiu o rio Ganges
um dia pela manhã.
as águas se misturavam,
pois dois rios se encontravam
— o Mohana e o Vilajan.
.
Tomou um banho e seguiu
sem destino, a caminhar,
até que uma intuição
lhe apontou para um lugar
e ele partiu confiante:
era o ponto culminante
da montanha Barabar.



Ali, ficou alguns meses
meditando noite e dia.
Entre a vigília e os jejuns
o seu tempo dividia,
dormia uns poucos minutos
e só comia alguns frutos
que a terra lhe oferecia
.
Certa tarde adormeceu
tão fraco e tão abatido
que permaneceu no sol,
prostrado, desfalecido.
Tão magro o seu corpo estava
que quem o visse pensava
que ele tivesse morrido.
.


Foi salvo por um pastor
vindo das bandas do Norte,
que lhe deu leite de cabra
e o retirou do sol forte.
Se não fosse aquela ajuda
certamente o Senhor Buda
teria encontrado a morte.
.
Quando o príncipe acordou
o pastor tinha partido,
viu que o tiraram do sol,
sentiu que tinha comido,
estendeu o olhar de monge,
viu seu salvador lá longe
e o saudou, agradecido.
.
De outra feita, meditava
sob uma árvore, sentado,
no mais completo silêncio
quando se viu despertado
por acordes musicais
que eram como madrigais
ao seu ouvido apurado.
.
Olhou e viu que era um grupo
de músicos e bailarinas
com seus vestidos bordados
e meias de sedas finas:
uma verdadeira festa,
um bailado na floresta,
um sonho em meio às colinas
.
Adiante, o grupo parou
de tocar e de dançar
e uma das dançarinas
veio ao músico avisar:
afina a citara pra nós
na altura de nossa voz,
que agora vamos cantar.
.
A dançarina insistia
para que a afinação
não fosse alta nem baixa,
mas em um diapasão
em que existisse harmonia
entre o que a cítara dizia
e o que falava a canção.

 
Quando o grupo foi-se embora
envolto em sua alegria,
Siddarta pôs-se a pensar
sobre o que a moça dizia:
"HARMONIA, AFINAÇÃO...
O QUE FALAVA A CANÇÃO...
O QUE A CÍTARA DIZIA"...
.
Contemplou seu corpo magro
sobre a pele ressequida,
fitou o céu e falou
da forma mais decidida:
devo ter exagerado,
talvez eu tenha esticado
demais as cordas da vida...
.
"Os meus olhos estão turvos,
embora eu veja a Verdade,
sinto que não vou ter forças
na hora da necessidade.
Vou poupar a minha vida
para entregá-la em seguida
à causa da Humanidade!
.
Na cidade de Senani
ficou uma temporada,
quando sentiu que a saúde
já estava recuperada
partiu dali para Bear
onde, enfim, iria achar
a meta tão almejada
.
Nesta altura, era tão forte
o seu poder de vidência
que ao avistar uma árvore
teve plena consciência
que aquela copa frondosa
era a ficus religiosa
ou a Árvore da Ciência...
.
Dirigiu-se para a árvore
num passo determinado,
olhou para o firmamento
e fez seu voto sagrado:
"AGORA, EU ME SENTAREI
E DAQUI SÓ SAIREI
OU MORTO OU ILUMINADO!"
.




Aqui, meu caro leitor,
nós vamos ter que parar.
Você vai respirar fundo,
eu também vou respirar,
pra ver se a gente consegue
extrair do que se segue
o que há para assimilar...
.
Talvez me faltem palavras
porque a linguagem humana
é pobre para expressar
qualquer coisa soberana,
quanto mais para exprimir
o que alguém possa sentir
ao penetrar no NIRVANA!


Como expressar em palavras
de modo a ser entendido,
o estado em que a gente ouve
sem utilizar o ouvido,
enxerga sem a visão,
sente toda sensação
sem usar nenhum sentido?!
.
Como descrever a voz
aparentemente muda
do silêncio absoluto
que escutava o Senhor Buda?,
o som que ninguém escuta,
a luta que não é luta,
a mudança que não muda?!
.
Como explicar uma Luz
que está sempre a iluminar,
envolve a todos os seres,
clareia em todo lugar,
brilha em todos os sentidos,
mas somente aos escolhidos
é dado vê-la brilhar?!
.
Vejamos até que ponto
poderei, leitor amigo,
sem falsear a verdade
nem vacilar no que digo
mostrar o que o Buda viu,
percebeu, ouviu sentiu
e o que se passou consigo:
.



Logo que Ele se sentou
um sol imenso o envolveu,
todo o céu iluminou-se,
a terra inteira tremeu.
Riram-se os santos e os Devas
porém Mara — o rei das trevas —
lá no inferno estremeceu.
.
Mara — que quer dizer diabo
no idioma dos hindus —
quando viu Buda sentar-se
convocou seus belzebus
e ordenou lhes sem rodeio
pra evitar por qualquer meio
que o Mestre encontrasse a Luz!
.
Mara sentia estar próximo
o final de seu reinado,
pois sempre que um Avatar
se torna um Iluminado,
prova que o diabo é ilusão
e, ao vencer a tentação,
desmoraliza o pecado
.
Por isto, o interno de Mara
tornou-se um Deus-nos-acuda:
chamou todos os demônios
e exigiu-lhes sua ajuda,
mandou que se disfarçassem
e a todo custo evitassem
a Iluminação de Buda!


Primeiro, veio o egoísmo
disfarçado de bomzinho
e disse ao Buda: “Está bem
vou te mostrar o caminho
desde que tu te ilumines,
mas a ninguém mais ensines —
Sejas Buda tu sozinho"!
.
Mas Buda, reconhecendo-o
rechaçou-o com firmeza:
"NÃO CONSEGUES ME ENGANAR,
CONHEÇO A TUA ESPERTEZA,
SÓ ILUDES AOS QUE TE AMAM E A SI MESMOS SE PROCLAMAM
COMO DONOS DA CERTEZA".
.




E assim desfilaram todos
os mais temíveis pecados:
o orgulho, a concupiscência,
os prazeres desvairados,
o ódio — o mais triste deles —
Buda venceu todos eles,
foram todos derrotados.
.
Nessa primeira vigília
vieram raios e tufões,
relâmpagos, tempestades,
tremor de terra, trovões,
tudo isto Mara mandava,
mas Buda continuava
entregue as meditações.
.
Já na segunda vigília
foi enviada por Mara
aquela que, para Buda
era a lembrança mais cara:
mandou-lhe uma bailarina,
linda, esplêndida, divina,
disfarçada em Yasodhara.
.
Na visão ela dizia:
"Vem, me beija, és o meu dono,
não vês, príncipe, que morro
devido ao teu abandono?
Vem, nosso leito te espera,
deixa toda essa quimera
e volta pro nosso trono".
.
Mas Buda identificou
naquela visão tão clara
que procurava envolvê-lo
na forma de Yasodhara,
mais um fruto da ilusão,
mais uma maquinação .
da astúcia incrível de Mara.
.
Quando Siddarta venceu
os pecados capitais
recolheram-se aos abismos
as legiões infernais
e Ele viu que inferno e céus
não são mais que simples véus,
sonho, ilusão, nada mais!


 
Veio a terceira vigília:
liberto das tentações,
Siddarta viu claramente
suas peregrinações
(lutas, vitórias, tormentas)
era um total de quinhentas
e cinquenta encarnações.
.
Nas vidas anteriores
viu seus bons e maus auspícios,
florestas, pântanos vales,
cavernas e precipícios,
prazeres, vicissitudes,
e o triunfo das dez virtudes
sobre a escravidão dos vícios.
.
Viu como, em cada existência,
colhia implacavelmente
o que havia semeado
na existência precedente,
e a Justiça que o céu dá
não é boa nem é má,
Mas Justiça....simplesmente!
.
Na altura da meia noite
veio a mais bela visão:
Buda entrou noutras esferas
onde sóis em profusão
iluminavam as vidas
de galáxias escondidas,
numa quarta dimensão...
.
Viu satélites girando
de maneira invariável
em torno de seus sistemas,
cada um mais formidável,
tudo obedecendo a um plano
infinito, soberano,
preconcebido e imutável!
.
Milhões de mundos rodando
à extrema velocidade,
se formando e se extinguindo
com uma regularidade
capaz de causar espanto,
separados, e, entretanto,
Integrando uma Unidade!...
.


Transpôs cimos, profundezas,
desvendou estratosferas,
viu atrás das aparências,
ouviu além das esferas,
foi aos abismos mais fundos,
habitou todos os mundos,
viveu em todas as eras...
.
Ele, que já tinha visto
a Lei de Causa e Efeito,
viu a Lei da Evolução
melhorando o que está feito,
Fazendo o Grande — MAIOR,
Tornando o Bom — no MELHOR,
fazendo o Melhor — PERFEITO!


Viu que a mão do Absoluto
— essa Lei sempre imutável —
constrói, conserva, destrói
de maneira inexorável,
depois, volta a construir,
conservar e destruir
cumprindo um ciclo infindável.
.
Durante a quarta vigília,
já com sua alma liberta
e a super consciência
inteiramente desperta,
Siddarta perceberia
o que, por certo, seria,
sua maior descoberta:
.
As QUATRO NOBRES VERDADES
que iriam ser a semente
de sua Filosofia
vieram simultaneamente
puras, claras, cristalinas,
como emanações, Divinas
pousadas na sua mente!
.
Primeiro, ele percebeu
que A DOR É A SOMBRA DA VIDA
e, aí, pode ver a DOR
claramente refletida
na face da Humanidade.
Era a Primeira Verdade
que ficava esclarecida.
.



Pensou na CAUSA DA DOR
e percebeu num lampejo
e, ao perceber, proclamou:
""Sim, é claro, agora eu vejo,
as dores que ao mundo afligem,
todas elas têm origem
nas sensações, no DESEJO!
.
Estava assim descoberta
sua Segunda Verdade:
Sensação gera desejo,
desejo gera ansiedade,
ansiedade é dor, conflito,
e assim até o Infinito
e por toda a Eternidade!
.
Aprofundou ainda mais
a sua meditação,
viu a Terceira Verdade
brotar no seu coração
vinda da Fonte da Vida,
pode bem ser resumida
nesta simples equação:
.
Sabendo que A VIDA É DOR
e A DOR VEM DA SENSAÇÃO,
quem perceber que os sentidos
não passam de uma ilusão,
sublima a existência humana
entra na paz do Nirvana
e alcança a libertação...


A Quarta Nobre Verdade
aponta o caminho ou Via
de Oito etapas, que resume
o cerne e a Filosofia
do Budismo original
— profundo manancial
de pura sabedoria!
.
Essa Estrada de Oito Vias
nem sempre é bela e florida,
tem desvios, precipícios
—como os caminhos da vida —
exige muita prudência,
retidão e paciência
pra poder ser percorrida.
.



É o caminho tortuoso
pontilhado de aflição,
mas, como tudo o que é duro
tem sua compensação:
é a Estrada que conduz
à Paz, à Verdade, à Luz
e à Verdadeira União.
.
Finalmente, é a Grande Via
pela qual a Raça Humana
livre das superstições
caminhará soberana,
encontrará Liberdade,
vislumbrará a Verdade
e atingirá o Nirvana!
.
As primeiras Quatro Vias
são mais simples, mais diretas,
visam todas as criaturas
— cultas ou analfabetas.
Seus quatro preceitos são:
CRENÇA, PALAVRA, INTENÇÃO
e mais CONDUTA corretas!
.
As segundas quatro vias
mais difíceis, mais completas
destinam-se mais aos monges,
aos discípulos e ascetas
Constam de: MEDITAÇÃO,
PENSAMENTO, SOLIDÃO
E a pureza corretas!
.
Neste ponto, o Senhor Buda
foi voltando aos seus sentidos.
Apalpou o próprio corpo
com seus dedos doloridos,
experimentou o tato,
provou o gosto e o olfato
e apurou bem os ouvidos.
.
Por último, abriu os olhos
sob a árvore bendita
vivendo uma sensação
tão Divina, tão bonita,
tão forte, tão colorida,
que poderá ser vivida,
mas não pode ser descrita!





Ergueu-se, respirou fundo,
caminhou pelo deserto.
Agora, sim, era O BUDA,
o DUAS VEZES DESPERTO,
Liberto dos sofrimentos,
da roda dos Nascimentos
e Mortes, enfim LIBERTO!
.
Atravessou a montanha
pregou em vários lugares
Escolheu cinco discípulos
da cidade de Benares,
Falou-lhes seguidamente
e os instruiu verbalmente
nas verdades basilares.
.
Depois, no parque dos Gamos
cinquenta e quatro senhores
e mais o príncipe Yasad
tornaram-se seguidores
do mestre amado e singelo,
vestiram o manto amarelo
e foram ser pregadores.
.
Aos sessenta novos monges
Buda entregou com carinho
as Verdades e os Princípios
escritos num pergaminho
e pediu-lhes que viajassem
pregando aos que desejassem
sobre as Vias e o Caminho.
.
Já fazia sete anos
que Siddarta se ausentara
das terras de Suddhodana,
de Channa e de Yasodara.
Era tempo de voltar,
mas, antes, quis visitar
o reino de Bimbisara.
.
Na cidade florestal
permaneceu alguns dias
pregando as QUATRO VERDADES
e o Caminho de OITO VIAS.
Enquanto Buda pregava
a cidade fervilhava
em constantes romarias.
.




Como fruto imediato
dessa rápida passagem,
mais 900 discípulos
apreenderam a mensagem,
fizeram suas opções,
receberam instruções
e empreenderam viagem.
.
Nessa altura, Suddhodana
já tinha sofrido horrores:
mandara nove recados
por diversos portadores,
mas seus homens não voltavam
ouviam Buda e ficavam
tornavam-se seguidores.


Na mesma situação
se encontrava Yasodhara:
mandou vários emissários,
diversas cartas mandara.
Nem emissários nem carta,
todos acharam Siddarta,
mas nenhum só regressara.
.
Por fim, o rei Suddhodana
botou numa carruagem
o seu ministro Udaiy
e instruiu o personagem,
solicitando-lhe ajuda:
entregar em mãos de Buda
sua décima mensagem.
.
Junto ao Jardim dos Bambus
uma grande multidão
contemplava o Senhor Buda
sentado em meditação.
O ministro aproximou-se,
sentou-se aos seus pés, curvou se
e pôs-lhe a carta na mão.
.
Na hora em que o Senhor Buda
voltou novamente a si,
leu a mensagem do rei
e falou para Udaiy:
"Ide e anunciai ao rei
que irei, certamente, irei
logo que eu partir daqui.
.



Quando o rei anunciou
que Siddarta voltaria
houve em Kapilavastu
uma explosão de alegria
desde a cidade à floresta,
todo o povo entrou em festa
a partir daquele dia.
.
Deixo a critério, leitor,
de sua imaginação,
ver a pompa, o luxo, o brilho,
o requinte, a ostentação
com que o rei se preparou
e a cidade engalanou
para aquela recepção!
.
Ergueu pavilhão de flores
no portão Sul do reinado,
o caminho até o palácio
foi todo ele atapetado
de rosas, cravos, jasmim,
sândalo, lírio e alecrim
— era um Éden perfumado.
Para tornar o percurso
mais enfeitado e mais belo,
escolheu 100 bailarinas
que, vestidas de amarelo,
dançariam num bailado
desde o pavilhão dourado
até o portão do castelo!


Yasodhara preparou-se
com todo esmero e cuidado
vestiu seu vestido de ouro
que há muito estava guardado,
Chamou seu filho — Raul —
e foi para o portão sul
esperar seu bem-amado!
.
Mandou ocultar o carro
por detrás de um arvoredo
e ali deixou-se ficar
escondida, desde cedo,
os olhos fixos na estrada,
tremendo, descontrolada,
com alegria e... com medo!
.




Passava do meio dia
quando ela viu um ermitão
pedindo esmolas nas casas,
passos firmes, pés no chão,
a túnica amarelada,
com a cabeça raspada
e uma marmita na mão.
.
Notou que dois outros monges
lhe faziam companhia
os três caminhavam juntos,
porém só ele pedia,
viu que as casas se fechavam
e as pesssoas se juntavam
à multidão que os seguia.
.
Quando Ele se aproximou
à frente do povaréu,
a princesa, ainda em dúvida,
levantou-se, ergueu o véu
reconheceu-o e, por fim,
prostrou-se e ficou assim
como quem entra... no céu!
.
Abraçou-o e, nesse abraço
percebeu um novo encanto,
uma sensação diversa
da que antes sentira tanto:
não era o abraço do homem
a quem as paixões consomem,
era o abraço do Santo.
.
Em vez da ardência e calor
daquela paixão voraz
que envolvia os seus abraços
há sete anos atrás,
agora, apenas sentia
emanações de alegria,
vibrações de pura paz.
.
Num relance, Yasodhara
sentiu que sua ansiedade
transformou-se em um estado
de plena serenidade.
Naquele abraço tão casto
sentiu um amor bem mais vasto
porque era amor de verdade.





Quando o rei soube que o filho
chegou feito um ermitão
pedindo esmolas aos pobres,
deu trinta murros no chão
decidido a espinafrá-lo,
esporeou seu cavalo
e foi para o pavilhão.
.
Mas seu ódio foi cedendo
quando viu a multidão.
Era uma avalancha humana
vindo era sua direção.
Tratou de ir-se desmontando
e foi a pé, caminhando,
no rumo da procissão.
.
Quando Siddarta o avistou
lançou-lhe um olhar tão pleno
de bondade, de ternura,
tão divino, tão sereno,
com tanto amor o abraçou
que ali mesmo o rei parou
de destilar seu veneno.
.
Mesmo assim, ainda lhe disse:
"Por que fizeste isto, filho?
Eu engalanei teu reino
com toda essa pompa e brilho
para gozá-lo contigo
e voltas feito um mendigo
pobre, roto, maltrapilho?!”
.
Buda caminhava altivo
como em estado de Graça.
Parou, contemplou o povo
comprimido em meio à praça
e disse ao rei: "ESCUTAI,
ESTE MEU TRAJO, MEU PAI,
É O TRAJO DE MINHA RAÇA!"
.
O rei, porém, retrucou:
"Tua raça é menos modesta!
Pertences a uma linhagem
que teve cem reis à testa!
Cem tronos te precederam,
cem reis nos antecederam!
Não! Tua raça não é esta"!
.




— NÃO VOS REFIRO, MEU PAI,
MINHA LINHAGEM MORTAL,
MAS A MINHA DESCENDÊNCIA
INVISÍVEL, MAS REAL,
DOS BUDAS — ILUMINADOS —
OS ANTIGOS E OS PASSADOS,
A MINHA ESTIRPE IMORTAL!
.
"NÃO PRETENDO VOS MAGOAR
NEM CAUSAR QUALQUER DESDOURO,
MAS ESTE MANTO AMARELO
— QUE É MEU ÚNICO TESOURO —
É O TRIUNFO DA PUREZA
SOBRE AS POMPAS E A RIQUEZA
DE QUALQUER IMPÉRIO DE OURO!


"O IMPÉRIO QUE EU VOS TRAGO
É O IMPÉRIO DA HUMILDADE,
DO AMOR, DO BEM, DA VIRTUDE,
DA PAZ. DA FRATERNIDADE,
DA RENUNCIA, DA ALEGRIA,
DA FÉ, DA SABEDORIA,
- É O IMPÉRIO DA VERDADE!
.
IMPÉRIO DE QUEM TRIUNFOU
SOBRE TODAS AS PAIXÕES,
TRIUNFOU SOBRE SI PRÓPRIO,
SEUS DESEJOS E AMBIÇÕES,
SOBRE O DESTINO E A SORTE,
SOBRE A VIDA, SOBRE A MORTE
E TODAS AS ILUSÕES!
.
Quando Buda silenciou
notou com toda clareza
lágrimas de compreensão
nos olhos de sua Alteza.
Caminhou transfigurado
Conduzindo o rei, de um lado,
e, do outro, o filho e a princesa.
.
Na fronte do Senhor Buda
brilhava uma aura lilás.
E assim entrou no palácio,
seus parentes logo atrás
e a partir daquele dia
todos entraram na Via
do Amor, da Luz e da Paz!
.



Depois de ficar uns dias
junto aos seus familiares,
pregou a uma multidão
que se contava aos milhares.
Foi uma noite de glória
que permaneceu na História
como o SERMÃO DE BENARES!
.
Contam os livros antigos
que a noite era enluarada
e que a Cidade dos Templos
estava superlotada
já há mais de uma semana.
Toda a nação indiana
lá estava representada.
.
Buda curvou se ante e povo,
depois, sentou-se no solo.
O rei sentou-se à esquerda
sem pompa, sem protocolo
e Yasodhara à direita
feliz, em paz, satisfeita,
com o seu filho no colo.
.
Buda começou falando
das QUATRO NOBRES VERDADES
seu sentido, seus valores,
suas generalidades
e explicou uma por uma
sem se esquecer de nenhuma
as suas finalidades.


Explicou como aplicá-las
para vencer as paixões,
como é possível vencer
sofrimentos e aflições,
como encontrar a Verdade,
a Paz e a Felicidade
dominando as sensações.
.
Esclareceu com exemplos
a Lei de Causa e Efeito,
mostrou como o homem recebe
conforme o que tiver feito
noutras vidas, no passado:
colhe o mal se agir errado,
colhe o bem se agir direito.
.



Segundo essa Lei tão sábia
Cada um é o seu juiz:
não pode dizer que é pobre
ou mau porque Deus o quis.
Conforme AGE, FALAl e PENSA
terá sua recompensa,
será feliz ou infeliz...
.
Mostrou como funciona
a Lei da Evolução:
como tudo que é criado
se encontra em transformação,
cresce, se expande, evolui,
murcha, contrai-se, involui,
volta ao seio da Criação!
.
Dissertou sobre os pecados:
o orgulho, a intolerância,
a gula, a inveja, o ódio,
luxúria, apego, arrogância
e mostrou que todos eles,
sem excluir nenhum deles
resultam da ignorância.
.
Mostrou, depois, que a Virtude
funciona do mesmo jeito,
ou seja, o ignorante
da Lei de Causa e Efeito
vive num emaranhado
entre a virtude e o pecado
sem saber o que é direito...
.
Explicou em termos simples
úteis para o dia-a-dia
o Caminho de Oito Etapas
mostrando via por via
de maneira que a assistência
entendesse toda essência
da sua Filosofia.
.
Encerrou o seu discurso
ensinando a multidão
os cinco preceitos-chave
para a purificação,
um verdadeiro tesouro —
são as cinco regras de ouro
pra atingir-se a perfeição.





A primeira dessas regras
se resume simplesmente
em: NÃO MATAR OU FERIR
A QUALQUER SER VIVENTE.
Plantas, pedras e animais
têm existências iguais
as existências da gente.
.
A segunda é: NÃO TOMAR
COISA ALGUMA A SER ALGUM
POR FRAUDE OU POR VIOLÊNCIA,
NÃO ROUBAR A HOMEM NENHUM.
Se só possuis um pouco de dinheiro,
os milhões do mundo inteiro
valem menos que o teu UM ..
.
A regra número três
para o homem evoluir
é: FALAR SEMPRE A VERDADE,
não caluniar ou trair
jamais a pessoa alguma
sob hipótese nenhuma.
em resumo: NÃO MENTIR!.
.
A regra número quatro
preceitua e especifica:
EVITAR TODAS AS DROGAS
E TUDO QUANTO INTOXICA.
O corpo é um templo sagrado:
se ele está purificado
a alma se purifica.
.
Finalmente, a quinta regra
prevê com toda a clareza:
RESPEITO A MULHER ALHEIA
para viver em pureza
não cometendo jamais
quaisquer pecados carnais
contra as Leis da Natureza!
.
Durante uma noite inteira
a sua voz cristalina
pregou o amor e a renúncia
— bases de sua Doutrina.
Nem seu filho cochilava
como a dizer que aceitava
aquela herança Divina...
.




Nunca, na história do mundo
se ouviu discurso mais belo!
Quando ele acabou, o rei
beijou-o de modo singelo,
fez-se um de seus companheiros
e quis ser um dos primeiros
a usar o manto amarelo.
.
Depois dessa noite histórica
despediu-se de Benares
e por quarenta e cinco anos
pregou em templos, altares,
vilas, fazendas, cidades,
levando as Quatro Verdades
aos mais diversos lugares.


Aos 77 anos
Buda — o exemplo da Virtude —
estava em Kusinagara,
mesmo na Província de UDH
e previu seu desenlace
muito embora ainda gozasse
de absoluta saúde!
.
Uma certa madrugada
do Ano 620,
Buda chamou um discípulo
que foi seu único ouvinte
e, num tom de voz bem suave,
naquele momento grave
lhe transmitiu o seguinte:
.
"Cumpriu-se a minha missão.
Dentro em pouco partirei.
Vós e os vossos companheiros
Sabeis tudo o que ensinei.
Tomai meus ensinamentos
e pregai aos quatro ventos
A Estrada, a Verdade, a LEI"!?
.
O monge saiu correndo
para avisar aos demais,
mas a'alma do Senhor Buda
já não era entre os mortais,
pairava em pleno Nirvana,
livre da cadeia humana,
nas regiões siderais!
.




Passados vinte seis séculos,
um terço da Humanidade
em todos os Continentes
cultua com humildade
nas mesquitas e nos templos
os seus & imortais exemplos
de ETERNO AMOR À VERDADE!
.
Desculpe, amigo leitor,
as falhas do meu relato.
entrou por perna-de-pinto,
saiu por perna-de-pato,
O Rei mandou-me dizer
pra nunca mais me meter
Nos mistérios do Budato...
.
OM! Shanti, Shanti, Shanti!
.
FIM
Paraíba, Brasil, 1977